sexta-feira, 29 de abril de 2011

309- Comentários ao filme Crash - Coluna do professor José Luiz Quadros de Magalhães

Crash (2005) – Múltiplas identidades. A cidade cosmopolita perdida em conflitos de micro identidades.

JOSE LUIZ QUADROS DE MAGALHÃES



Há uma forte diferença entre bandidos e mocinhos no imaginário social e uma ausência desta diferenciação nas práticas sociais diárias. A repressão policial diária é bandida, é expressamente fora do Direito embora muitas vezes dentro da lei. Ela desrespeita a privacidade, a dignidade, a repressão humilha pelo simples fato da condição social ou da cor do sujeito. Dizem: o problema da idéia da ordem constitucional que pretende a democracia é que esta ordem não permite a polícia trabalhar. Com esta justificativa agem então fora do Direito, contra o Direito.

O filme “crash” mostra até onde as nomeações (que tratamos em outros textos) podem chegar em uma sociedade dita cosmopolita. Se a nomeação, dentro do estado moderno, que procura unificar todos os grupos sociais e todos os nomes próprios em uma única denominação, pode justificar privilégios e discriminações excepcionais, a fragmentação da sociedade em pequenos grupos de identidades, em pequenas nomeações pode gerar outros tipos de problemas.

As sociedades cosmopolitas de Los Angeles; Nova York, São Paulo; Londres e Paris não estão além das nomeações ou dos predicados radicais. Ela está multi-fragmentada em diversos predicados radicais.

Negros, asiáticos, coreanos, chineses, árabes, turcos, persas, nordestinos, brancos, góticos, cabeças raspadas, nacionalistas, racistas, mexicanos, hispânicos, caucasianos, católicos, evangélicos, mulçumanos, judeus, darks, emos, punks, metaleiros e mais um monte de nomeações convivem no espaço complexo das grandes cidades. São obrigados pela lei a se suportarem embora os que aplicam a lei pertençam também a grupos fechados e, logo, vejam o mundo, limitados pela compreensão deste seu grupo: juízes, policiais, promotores, advogados entre outros grupos são hoje corporações enclausuradas por nomes coletivos e por uma auto-referência que sustenta o grupo.

O filme mostra que até mesmo os nomes próprios, que deveriam ser a marca da identidade individual única, não funcionam assim, uma vez que carregam a identidade do grupo ao qual pertencem mesmo sem querer pertencer: Shaniqua é um nome negro; Saddam é um nome iraquiano; Hassan é um nome muçulmano; Ezequiel é um nome evangélico; Pedro é um nome cristão; David é um nome Judeu: o nome próprio é abafado pelo nome do grupo. O nome próprio é condicionado pelo predicado radical.

O filme mostra que é possível se libertar do nome grupal e resgatar algo universal, algo humano, além das nomeações de grupos, etnias, cores, países, religiões. Algo humano universal que resgate o nome próprio.

A aposta de Badiou(1) em um estado contemporâneo indistinto em sua configuração identitária depende não da superação das nomeações mas da superação da sacralização de determinados nomes coletivos.

Esta sociedade contemporânea democrática plural, que tenha um sujeito que não ignora os particularismos, mas que ultrapasse estes; que não tenha privilégios e que não interiorize nenhuma tentativa de sacralizar os nomes comunitários, religiosos ou nacionais ainda não existe. O que o filme mostra é uma realidade fragmentada por nomes grupais sacralizados mas não elimina a esperança de um espaço livre de sacralizações.

Estes nomes grupais sacralizados podem gerar novas guerras tribais. Importante lembrar que a construção de uma identidade nacional ocorre, na história moderna, pela uniformização e posterior negação de identidades étnicas pré-existentes. Desta uniformização e encobrimento depende o reconhecimento do poder do Estado e de sua ordem social e econômica, imposta a todos de forma homogênea. Entretanto, no caso norte-americano, a identidade nacional em um país de imigrantes foi sendo, gradualmente fundamentada nas três ultimas décadas do século XX, sobre o discurso do reconhecimento de identidades múltiplas, unidas por um valor base de cunho liberal econômico e social.

Nos EUA a idéia de identidade nacional, especialmente na segunda metade do século XX, passou a ser construída em boa parte, especialmente nos espaços cosmopolitas das grandes cidades, sobre a idéia de uma pretensa “democracia étnico-racial multidentitária” que se opõe às identidades nacionais intolerantes e uniformes. Neste nome comprido faltou, entretanto, a efetividade da prática democrática.

O problema se complica quando se acredita poder fazer cumprir esta pretensa democracia étnico-racial multidentitária por meio da lei e do controle policial. A polícia também é um grupo corporativo auto-referente e logo com preconceitos, códigos e símbolos próprios que anulam as pessoas quando estes estão fardados, quando estão no meio do grupo. Este grupo que acredita simbolizar a própria lei se sente no direito muitas vezes de ignorar o Direito para se auto-preservar e preservar a imagem construída no grupo para o próprio grupo.

A idéia final que prevalece em Crash é a crença na sobrevivência dos nomes próprios encobertos pelos nomes grupais. O dado humano universal sem nome pode sobreviver ao preconceito e as simplificações.



BADIOU, Alain. Circonstances, 3 – portées du mot “juif”.,Editions Lignes e manifeste, Paris, 2005,15.

Um comentário:

  1. Umberto Abreu Noce29 de junho de 2011 18:27

    Entendo que este filme mostra também, como todos nós carregamos um pouco do preconceito, mesmo que velado. Por exemplo aquela atendente do plano de saude que fica ofendida por sofrer preconceito devido a sua cor, logo após se envolve em um acidente de carro e desconta tudo afirmando que se não for cidadã americana ela nem conversaria.
    Acredito que o filme reforça a crença na humanidade, mas também mostra bem como somos.

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