sexta-feira, 31 de agosto de 2012

1231- O dogma neoliberal - IDEOLOGIA


Em vários textos sobre ideologia como encobrimento e distorção (dialogando com a obra de Slavoj Zizek e Alain Badiou) temos explicado alguns dos mecanismos ideológicos de distorção e encobrimento. Entre os mecanismos estudados nos referimos a matematização do discurso econômico (e-ou sua naturalização). Os textos podem ser encontrados no blog. A seguir um texto de Michel Husson explicando a falsidade do dogma neoliberal:
Economia| 31/08/2012 | Copyleft 

Neoliberalismo, um dogma inabalável?

O corpus neoliberal é um conjunto “de ideias mortas que ainda caminham entre nós”, explica John Quiggin num livro notável. A crise deveria tê-las reduzido a pó, mas as ideias neoliberais são constantemente renovadas, segundo um processo de produção permanente, no seio de verdadeiras fábricas que funcionam como aparelhos ideológicos: instituições internacionais, universidades, think tanks. A sua legitimidade assenta na ideia de que a economia é uma ciência de leis incontornáveis. O artigo é de Michel Husson.

Na França, centenas de economistas reuniram-se para dizer até que ponto estavam “perplexos” em razão das políticas levadas a cabo na Europa. Diante da crise, as medidas de apoio à atividade depressa foram substituídas por uma austeridade generalizada. Ora, esta desencadeia uma espiral recessiva que não pode resolver a questão da dívida, e muito menos do desemprego. Esta vontade cega de voltar ao business as usualvem acompanhada de uma aplicação brutal das receitas neoliberais, que se parece muito a uma terapia de choque.


Podemos falar aqui de dogma, no sentido de que o corpus neoliberal é um conjunto “de ideias mortas que passeiam ainda entre nós”, como explica John Quiggin num livro notável [1]. Ele cita cinco, entre as quais a hipótese da “eficiência dos mercados” (os preços determinados pelos mercados financeiros representam a melhor estimativa possível de um investimento) ou a “teoria do escoamento” (trickle down economics) segundo a qual o bem-estar dos “1%” acaba por beneficiar o conjunto da população.



A crise, e o aumento das desigualdades que a precedeu, deveriam ter reduzido a pó estas ideias: mas elas sobrevivem, como testemunham a ausência de medidas significativas de regulação financeira ou de redução das desigualdades. Isto acontece porque o dogma neoliberal é constantemente renovado segundo um processo de produção permanente, no seio de verdadeiras fábricas: instituições internacionais, universidades,think tanks. Estes “aparelhos ideológicos” são ricamente dotados de meios e tendem a marginalizar todo o programa de investigação heterodoxa. A sua legitimidade assenta na ideia de que a economia é uma ciência de leis incontornáveis, tão intangíveis quanto as leis da física. Este cientifismo é o fundamento sobre o qual pode construir-se o crescimento econômico. 



Eis porque certos economistas podem sinceramente pensar que são depositários da razão econômica. Mas nem todos. Um grupo de economistas tomou recentemente posição “sem opção ideológica” a favor de Nicolas Sarkozy, precisando que “nem de direita nem de esquerda, a ciência econômica ajuda a deliberar as escolhas [sic]”.



Angela Merkel enunciou de maneira muito clara as “reformas estruturais” que deveriam acompanhar o “pacto do crescimento” proposto por Mário Draghi, presidente do BCE: “os custos salariais não devem ser muito elevados, as barreiras no mercado de trabalho devem ser baixas, para que cada qual possa conseguir um emprego”. Aqui temos dois artigos essenciais do dogma: o desemprego resulta de um “custo do trabalho” muito elevado e da rigidez do mercado de trabalho. Temos o direito de falar aqui de um dogma, porque esta causalidade nunca foi estabelecida. No entanto, muito se investiu para consegui-lo e a OCDE construiu mesmo toda uma bateria de indicadores com este fim.



Mas o resultado foi um fracasso: apesar dos estudos truncados, dos “consensos” duvidosos e das regras de três abusivas, nenhum resultado sólido pôde ser identificado. O último relatório da OIT (Organização Internacional do Trabalho) consagra um capítulo ao balanço desta literatura e conclui assim: “Os dados empíricos confirmam a conclusão de estudos anteriores: não existe ligação clara entre a legislação protetora do emprego e o nível de emprego”.



Promover políticas cujos efeitos contraproducentes são comprovados (recessão e precariedade) demonstra uma obstinação dogmática de que Jacques Freyssinet deu a chave: “Quando a situação melhora, isso prova a eficácia das reformas realizadas; quando a situação se degrada, isso prova a necessidade de acelerar o seu ritmo”. 



Mas o dogma não é simplesmente irracional. Ele funda uma irracionalidade restrita, fornecendo elementos de legitimidade a políticas que procuram preservar os privilégios de uma camada social estreita. Neste sentido, o dogma é um dos instrumentos que permitem reforçar o poder do capital. Mas esta arma ideológica não é suficiente para contornar o grande dilema que a crise fez aparecer: o capitalismo neoliberal já não pode funcionar nas mesmas bases, mas não aceita espontaneamente outras regras de funcionamento. Só um grau suplementar de afundamento na crise e/ou uma pressão social suficiente poderia afastá-lo do dogma neoliberal.



Retirado de Salut et Fraternité, PDF no site hussonet.

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net



NOTA
[1] John Quiggin, “Zombie Economics. How Dead Ideas Still Walk among Us”, Princeton University Press, 2010.

1230- A alma do negócio - por Henrique Napoleão Alves



A alma do negócio *


por Henrique Napoleão Alves

Reproduzo as imagens abaixo, com traduções livres dos dizeres principais:
 
Sopre na cara dela e ela te seguirá para onde for“.
 
Para começar melhor a vida, comece a beber refrigerantes de cola desde cedo!
 
Uma caixa de cerveja Blatz em casa significa muito para a jovem mamãe, e, evidentemente, o bebê também se beneficia disso. O malte da cerveja fornece qualidades nutritivas que são essenciais para essa fase…
 
O Chef (trocadilho com a marca da batedeira) faz tudo, menos cozinhar; afinal, é pra isso que servem as esposas!
 
Já não é tempo de você dar a si mesmo um presente de Natal?
 
Quanto mais duro a esposa trabalha, mais bonita ela fica“.
Caramba, querida, você parece mandar tão bem na cozinha, na limpeza e na varredura da casa e eu estou um trapo por ser época de fechamento. Qual o seu segredo?
Vitaminas, querido! Eu sempre tomo minhas vitaminas!
 
“Na manhã de natal, ela ficará mais feliz com uma Hoover (aspirador de pó).”
 
Como a TV beneficia suas crianças“.
Motorola, líder em televisores, mostra como TV é sinônimo de melhor comportamento em casa e melhores notas na escola!
 
Cocaína – drops para dor de dente. Cura instantânea! Preço: 15 centavos de dólar. Venda em todas as farmácias.”
 
Coma, coma, coma! E fique sempre magra! Como? Com lombrigas higienizadas!
 
Impressionante, não? Se a humanidade caminha a passos de formiga, parece que, a julgar pelo fato dessas propagandas provavelmente causarem surpresa e talvez indignação na maioria das pessoas hoje (ou estou sendo muito otimista?), demos alguns passos bem significativos rumo a alguma evolução nas propagandas, certo?
No nosso país, numa recente campanha publicitária de peças íntimas femininas da empresa Hope, a modelo mundialmente famosa Gisele Bündchen ensinava as mulheres a seduzir o marido após bater o carro ou estourar o limite do cartão de crédito. Falar com o marido em roupas comuns é o “errado”; contar pra ele o “problema” trajando uma lingerie sensual é o “certo”!
A modelo mais bem paga do mundo, que arrisca seus primeiros passos também como empresária, é símbolo da mulher moderna, que não depende do marido ou do pai para pagar as suas contas. Ela mostra que a tão sonhada independência financeira é possível – ainda que muitas feministas não aprovem o caminho que ela encontrou para aparecer nas listas da Forbes. E é essa contradição – entre a imagem que Gisele passa ao mundo com o seu trabalho e o conteúdo da propaganda – o que tanto incomoda“, comentou Bárbara Castro em artigo para a Carta Capital (29/09/2011).
A campanha foi criticada pela Secretaria de Políticas das Mulheres, órgão da Presidência da República, e alvo de investigação do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), diante de denúncias de que seu conteúdo seria discriminatório. André Vargas, da Revista Veja, chamou essa reação de “moralismo oficial“, e lembrou que, quando a mesma modelo protagonizou uma campanha para a TV paga Sky “onde aparece esfregando chão e limpando janelas, linda e submissa a um marido que não larga o controle remoto“, “[n]inguém reclamou“.
Sinceramente, não sei qual a melhor forma de lidar com a questão, mas tenho a convicção de que campanhas de esclarecimento e debates rumo à formação de um senso comum inclusivo são preferíveis a censuras verticalizadas (que, no caso, vale destacar, jamais ocorreram). Mas quero retomar  o comentário de André Vargas para, de um lado, dizer que definitivamente não me parece que a suposta falta de reação do público ou de órgãos de regulamentação etc. possa ser uma boa justificativa para uma propaganda sexista, como ele sugere; e, de outro, salientar que o comentário de Vargas suscita uma reflexão muito interessante: se as campanhas tiverem mesmo sido tratadas diferentemente, por que isso ocorreu? Por que a campanha da Hope causa furor, mas não a campanha da Sky? Ou, poderíamos acrescentar, as propagandas de produtos de limpeza, como a do Pato Purific, mencionada por Pedro Abramovay?
O humor é uma forma muito eficaz de lidarmos com o trágico, mas ele só pode vir sem causar furor ou indignação se respeitado um certo período de luto. A impressão que tenho é a de que, apesar de muitas mulheres brasileiras ainda serem donas-de-casa sem que isso seja resultado de uma escolha livre e informada, com o aumento muito significativo da inserção das mulheres brasileiras no mercado de trabalho (Bárbara Castro comenta um aumento da taxa de participação da mulher no mercado de trabalho de 32,9% para 59,5% da década de 80 para 2009) o papel social de dona-de-casa não é mais óbvio, mas, ao revés, é visto como um estereótipo ultrapassado pelo imaginário social (ou ao menos, ou principalmente, pelo imaginário das classes consumidoras da TV paga e das peças íntimas….). Já a “estereotipização” da mulher como objeto sexual é algo em disputa hoje na dinâmica da divisão dos papéis sociais e suas representações, e por isso torna-se menos aberta ao humor, ou, em outras palavras, se adéqua menos ao humor que respeita o luto subsequente à tragédia (percebida, ao menos parcialmente, como superada), e mais ao que ridiculariza a tragédia em curso.
Num texto de fins de junho de 2012, intitulado “Notas sobre uma Sessão de Fotos em Bali”, o antropólogo estadunidense Jonathan Square comenta como propagandas da indústria internacional da moda servem-se usualmente de um tipo de composição visual na qual a bela e famosa modelo fotográfica branca é colocada em meio a anônimos não brancos, ilustrando seu argumento com três imagens de diferentes campanhas publicitárias:
Ao comentar essa última foto, em particular, Square diz: “Notem a maneira como os dois homens negros gradualmente desaparecem no fundo escuro enquanto Adriana Lima [a modelo] é assertivamente colocada no plano frontal. Ninguém precisa explicar como ou por que ela está ali. A história da colonização e da supremacia branca global fala por si só. Eu não sou contra pessoas irem a Bali, à República Dominicana, ao Haiti ou a qualquer lugar fora dos Estados Unidos para sessões fotográficas. Eu peço apenas  [às empresas da indústria da moda] que sejam mais respeitosas com as culturas nativas, e que não usem as populações locais [apenas] para destacar a “universalidade”[worldliness] de suas roupas.
Também no Brasil, houve um recente caso de polêmica sobre o tema racial gerada por uma peça publicitária: o banco Caixa Econômica Federal havia veiculado uma propaganda comemorativa dos seus 150 anos de existência na qual mostrava a história de Machado de Assis, que teria sido correntista do banco, representado por um ator branco. Após repercussão negativa, a propaganda foi substituída por uma nova versão, dessa vez mais fiel à verdade histórica, com um Machado de Assis mulato. Pode ser que o erro não tenha sido intencional, mas fruto da falta de conhecimento do autor ou dos autores da propaganda. Mas, mesmo se tiver sido esse o caso, também aí não podemos ver uma influência direta do colonialismo, em pelo menos um sentido, visto que a propaganda foi fruto do trabalho de pessoas que têm presumivelmente um nível de escolaridade alto, e que, ainda assim, não sabiam que Machado de Assis não era branco? Por que raios “branquear” o Machado de Assis?
O humor é um santo remédio para ridicularizar o absurdo, como fez o pessoal dowww.charges.com.br na imagem acima – mas isso ocorre na crítica ao absurdo, não na sua constituição. Desconfio que, a exemplo do caso das campanhas discriminatórias com as mulheres, as propagandas criticadas por Square e a propaganda da Caixa sejam particularmente ofensivas justamente por cuidarem de uma chaga aberta: a da discriminação racial.  Feridas abertas não são sujeitas a serem encaradas simplesmente como humor ou licença poética em campanhas publicitárias sem alguma crueldade envolvida. Quando alguém cai na rua e se espatifa no chão, o riso pode ser instantâneo, mas ele normalmente só prossegue se sabemos que a pessoa que caiu está bem. O humor pode ser algo maravilhoso, sobretudo se não estiver direcionado à desgraça alheia, mas à sua superação. As propagandas em preto e branco do início do post e as prováveis reações que elas geram aos leitores e leitoras ilustram bem isso (apesar de tratarem de contradições apenas parcialmente superadas no nosso imaginário e, menos ainda, no mundo dos fatos).
Que um dia todas essas propagandas que reforçam estereótipos dolorosos possam ser apenas figuras velhas num livro escolar, retratando o tempo em que éramos uns brutos e atrasados. E que provoquem o riso nas crianças do futuro, o riso diante do absurdo ultrapassado, pois houve e haverá pesares e muito esforço para que esse momento seja alcançado.
Obrigado ao amigo Juliano Napoleão pelos comentários a uma versão preliminar do texto.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

1229- Cuba sem bloqueio - MIDIA LIVRE


http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20787


Cuba e seu futuro, sem o bloqueio informativo da mídia dominante

O livro “Cuba sem bloqueio” apresenta um retrato da realidade cubana, substancialmente diferente do que costuma ser mostrado pelos oligopólios da comunicação. O trabalho traz revelações surpreendentes até para os mais bem informados. Seus autores questionam: se o socialismo cubano é uma experiência fracassada, como explicar suas redes de educação, de atenção à saúde e de assistência social, que rivalizam com as dos países mais ricos do mundo?

Redação

Acaba de sair o livro “Cuba sem bloqueio: a revolução cubana e seu futuro, sem as manipulações da mídia dominante”, de Hideyo Saito e Antonio Gabriel Haddad, da Radical Livros*. Como anuncia o título, o trabalho procura mostrar a realidade cubana atual de forma direta e fundamentada, sem o bloqueio informativo que distingue a cobertura da mídia dominante. Cuba costuma ser caracterizada por esses órgãos de comunicação como uma ditadura decadente, com população empobrecida e oprimida, disposta a escapar para Miami ao menor descuido da polícia, graças ao fracasso indiscutível do regime socialista. Em contraste, “Cuba sem bloqueio” revela uma sociedade pobre, sim, mas razoavelmente harmônica, sem miséria, sem fome, sem analfabetismo, sem violência social e sem crianças abandonadas, imersa em um clima de debate aberto sobre como criar um socialismo capaz de unir prosperidade econômica, democracia e progresso social. 

Para chegar a esse resultado, os autores pesquisaram em fontes cubanas e de vários outros países, independentemente de sua orientação política. Foram consultados livros, estudos acadêmicos, estatísticas, relatórios de organizações cubanas e internacionais (Unesco, Organização Mundial da Saúde, Cepal, Banco Mundial e muitas outras), publicações de think tanks (como o Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos), além de periódicos, portais noticiosos da internet e outras fontes. Nos 12 capítulos redigidos com base no material reunido, Saito e Haddad relatam como a ilha caribenha decidiu permanecer socialista depois do súbito desaparecimento de seus parceiros comerciais do leste europeu, do recrudescimento do bloqueio econômico dos Estados Unidos e da expansão mundial da hegemonia neoliberal. Eles narram um processo de construção social que ainda luta para superar seus problemas, encarados como consequência de erros e de dificuldades políticas e econômicas de toda ordem, mas também de agressões e de obstáculos criados pelas potências dominantes. 

O livro reconstitui a saída do líder histórico Fidel Castro do poder, a emoção do povo com seu afastamento e o início do governo dirigido por Raúl Castro, caracterizado pelas medidas econômicas tomadas para corrigir distorções que se acumularam devido às políticas emergenciais dos anos 1990. As decisões foram amadurecidas em debates públicos travados por economistas, sociólogos, cientistas sociais e dirigentes governamentais, que têm tido ecos em assembleias de trabalhadores e de estudantes em todo o país e repercutem ainda em conversas particulares, em obras artísticas, em publicações acadêmicas e também na mídia local. 

Reinventar o socialismo
As discussões são dominadas por temas econômicos, mas abrangem também questões como o modelo eleitoral em vigor, a ampliação da liberdade de expressão artística e cultural, o reconhecimento pleno das uniões homoafetivas. Mais especificamente, constam da agenda os seguintes pontos: redefinição dos objetivos do sistema socialista; construção de um sistema econômico funcional, com a adoção complementar de formas de propriedade mista, cooperativada e privada; elevação qualitativa da participação popular; maior poder para a Assembleia Nacional; descentralização administrativa; fim do controle burocrático sobre a produção artística e cultural. Para o sociólogo Aurelio Alonso, subdiretor da revista Casa de las Américas, trata-se de criar um modelo capaz de assegurar a complementação entre justiça social e desenvolvimento econômico. No plano político, analisa Alonso, a História mostrou que o socialismo não se mantém sem democracia. Para ele, se houvesse um verdadeiro poder popular na União Soviética, Gorbatchov poderia ter sido bem-sucedido em reinventar o sistema socialista.

“Cuba sem bloqueio” relata que os projetos de lei mais importantes são debatidos antes pela população, para só então serem enviados à Assembleia Nacional do Poder Popular já com as alterações sugeridas. Foi em um processo desse tipo que, no início da década de 1990, o povo cubano se manifestou pela continuidade da construção socialista no país, apesar da conjuntura crítica surgida pela derrocada do socialismo europeu. Mostra também que os deputados eleitos (equivalentes aos nossos representantes da Câmara Federal) continuam a receber o salário que tinham em seus respectivos trabalhos, sem mordomia. Relata ainda o caso de um dissidente que tentou se candidatar a representante municipal, obtendo apenas 5% dos votos dos moradores de sua região. O livro conta que a posição do judiciário cubano, que deu ganho de causa a trabalhadores das áreas de arte e cultura vitimados por atos arbitrários do período conhecido como “quinquênio cinza” (década de 1970), ajudou a derrubar a própria política repressiva. 

“Cuba sem bloqueio” disseca a chamada dissidência cubana. Em 2006, segundo relatório da Anistia Internacional, foi realizado em Cuba um encontro de “mais de 350 entidades dissidentes”, ao qual compareceram, paradoxalmente, apenas 171 delegados (isto é, menos de meio representante por organização!). O governo cubano diz que são entidades de fachada, criadas para facilitar o recebimento de dinheiro do escritório de representação dos EUA em Cuba. A verdade é que esses grupos guardam pouca semelhança com a oposição democrática que, na maioria dos países da América Latina, lutou contra ditaduras militares. Em que pese a repressão do período no Brasil, por exemplo, a oposição se organizou, ocupou espaços, promoveu manifestações de rua, enfim, enfrentou a ditadura. Muito sangue foi derramado, mas cada vez mais gente se uniu à exigência pelo fim do regime, até que este desmoronou. A dissidência cubana, ao contrário, não consegue crescer e aparecer, mesmo com todo o apoio de Washington e da mídia. É patético, a propósito, que o jornal O Estado de S. Paulo estampe como manchete, com direito à principal foto da edição, uma manifestação de protesto que reuniu dez (isso mesmo, uma dezena!) mulheres no centro de Havana. 

Sítio medieval
Outro ponto forte do livro está no relato de como funciona o bloqueio econômico contra Cuba e como ele repercute no dia a dia da população. A medida de força é mantida unilateralmente por Washington, apesar da condenação anual de praticamente todos os países membros da ONU. Em outubro de 2011, a resolução que pedia o fim do bloqueio teve o apoio de 186 países, com o voto contrário apenas dos Estados Unidos e de Israel. O bloqueio fecha a Cuba o acesso ao maior mercado consumidor do mundo e proíbe os seguintes tipos de empresas de comerciar com a ilha: subsidiárias de empresas estadunidenses no exterior, companhias que tenham participação acionária ou cujos produtos contenham pelo menos 10% de peças, componentes ou tecnologia estadunidense e, de forma ampla e irrestrita, todas as firmas que pretendam negociar com os EUA. 

Mais ainda: o navio mercante que aportar em território cubano não poderá utilizar portos estadunidenses durante os seis meses seguintes. Proíbe ainda qualquer organização que receba fundos estadunidenses de conceder crédito a Cuba, além de impedir o país de utilizar o dólar em suas transações internacionais, de operar por meio de bancos que mantenham negócio com os Estados Unidos e de usar a rede de fibra óptica para conexão à internet. Por último, cidadãos dos EUA não podem viajar a Cuba e vice-versa. 

Ou seja, o bloqueio é uma versão moderna do sítio medieval, que tem o objetivo de estrangular economicamente o país. Cuba é obrigada a utilizar intermediários e empresas de fachada em seu comércio exterior, pagando cada transação à vista e incorrendo em comissões, fretes adicionais e taxas de risco que representam um custo adicional de 20 a 100% do valor de mercado do bem importado, segundo cálculos oficiais. Um estudo de 1992 da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), da ONU, avaliou que, enquanto Cuba contou com seus parceiros comerciais do mundo socialista, o bloqueio repercutia sobre 15% do intercâmbio do país; depois, passou a afetar toda a economia. 

Outra nefasta política do governo estadunidense enfocada pelos autores é a Lei de Ajuste Cubano, que concede a condição de refugiado político e visto de residência permanente a qualquer cubano que chegar aos Estados Unidos, em contraste com o tratamento dado aos demais latino-americanos. Washington costuma usar a atração exercida por essa lei e a não concessão de visto regular de entrada nos EUA a cidadãos cubanos, esperando provocar saídas ilegais e desordenadas, que possam servir de propaganda contra a revolução. O livro de Saito e Haddad cita números oficiais estadunidenses para comprovar que, mesmo nessas condições, o fluxo de cubanos que vão aos Estados Unidos é proporcionalmente menor do que o de muitos países latino-americanos. Menciona também o crescente ativismo de exilados favoráveis à revolução, que criaram associações de solidariedade a Cuba em pelo menos 45 países das Américas, da Europa, da Ásia e da África, incluindo o Brasil.

O verdadeiro crime de Cuba
“Cuba sem bloqueio” também aborda fatos que costumam ser omitidos ou minimizados pelos órgãos dominantes de comunicação. É o caso das políticas sociais do país, elogiadas por estudos de organizações internacionais tão insuspeitas (para o caso) como o Banco Mundial e os órgãos ligados à ONU. Num relatório intitulado “Panorama Social da América Latina e do Caribe 2000-2001”, a Cepal observa que, além de investir mais que seus vizinhos da região em programas sociais, Cuba não sacrificou o bem-estar da população quando sua economia entrou em depressão, nos idos de 1990. Os investimentos reais per capita na área social cresceram aproximadamente 23% ao ano entre 1993 e 2001, enquanto o incremento médio do PIB foi de 1,6% anual no mesmo período. 

Os resultados são visíveis para quem quiser enxergá-los. Um exemplo apenas: os estudantes cubanos foram os grandes destaques das duas pesquisas comparativas organizadas pela Unesco para avaliar as redes de ensino de países da América Latina, nos moldes dos famosos levantamentos da OCDE. Na primeira delas, o desempenho cubano foi tão superior ao dos demais países que a Unesco pensou ter havido algum equívoco. Por isso refez o teste com outra amostra de estudantes cubanos, mas os excelentes resultados foram confirmados. O mesmo desempenho cubano se repetiu na segunda pesquisa. A imprensa brasileira noticiou as pesquisas, mas não informou sobre a façanha cubana, ao contrário do The New York Times, que destacou o fato até no título da sua matéria. Em suas análises técnicas sobre as pesquisas, a Unesco coloca a educação cubana no nível da dos países líderes do primeiro mundo, da mesma forma como a OMS classifica os indicadores de saúde do país. Outro exemplo de apagão informativo ocorreu quando a revista Veja entrevistou o pedagogo e economista Martin Carnoy, que estava no Brasil para lançar o livro “A vantagem acadêmica de Cuba: por que seus alunos vão melhor na escola”. Na entrevista com o especialista divulgada em seu portal, a publicação cometeu a proeza de não mencionar o ensino cubano e o livro. 

Como vimos, “Cuba sem bloqueio” não fala de paraíso terrestre. Mas levanta algumas questões: Esse país é mesmo o retrato do fracasso do socialismo, como pretende a classe dominante capitalista e sua mídia? Nesse caso, como se explica que Cuba, apesar das pressões e agressões que sofre e em meio a uma crise econômica, consegue manter padrões de saúde e de educação que se igualam aos dos países capitalistas mais ricos? Provavelmente a fúria da mídia dominante se deve justamente à sua incapacidade de responder satisfatoriamente a perguntas como essas. Como disse Noam Chomsky: “O que é intolerável para essa mídia (‘o verdadeiro crime de Cuba’) são os êxitos cubanos, que podem servir de exemplo para povos de países subdesenvolvidos”. 

(*) O livro tem 448 páginas e custa R$ 45,00. Pode ser adquirido no portal da editora: www.radicallivros.com.br. A editora ainda não conseguiu divulgar o livro na grande imprensa, nem colocá-lo nas vitrines das redes de livrarias. 


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

1228- QUESTÃO URBANA - Ocupação Eliana Silva ressurge das cinzas - Coluna do Frei Gilvander


Ocupação Eliana Silva ressurge das cinzas.
Gilvander Luís Moreira[1]

Dias 11 e 12 de maio último (2012), a Polícia Militar de Minas Gerais, com um fortíssimo aparato repressor – mais de 400 policiais, com cavalaria, tanque de guerra (caveirão), cachorros e muitas armas – despejaram 350 famílias sem-casa e sem-terra da Ocupação Eliana Silva, no Barreiro, em Belo Horizonte, MG. O povo resistiu 36 horas e, extenuado fisicamente, saiu do terreno, mas saiu de cabeça erguida.
As famílias comeram o pão que o diabo amassou após esse despejo. Muitas pessoas tinham perdido emprego porque apostaram na Ocupação. Outras não puderam voltar para os aluguéis de antes. Arranjaram-se novamente debaixo da cruz do aluguel, que é um espinheiro, ou, se humilhando novamente, pediram guarida em casas de parentes ou de amigos/as. Mas o povo não se dispersou. Semanalmente continuou se reunindo. Pouco a pouco o trauma do despejo foi sendo elaborado existencialmente. As lideranças do MLB – Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas – sacudiram a poeira, avaliaram os acertos e os erros e, junto com as famílias, tomaram a decisão de dar a volta por cima e retomar a luta.
Premidas pela necessidade, algumas famílias sem-terra e sem-casa ocuparam nos últimos dias um grande terreno abandonado há mais de 40 anos, ao lado da Vila Santa Rita, no Barreiro, em Belo Horizonte. Sabendo dessa lenta ocupação, na madrugada do dia 25 de agosto de 2012, mais de 300 famílias sem-casa, de forma organizada, entraram também para dentro da mesma área.
A polícia militar chegou ao raiar do dia e iniciou-se uma grande tensão que rondou até o início da tarde. Houve risco de massacre. Advogados, lideranças e apoiadores foram presos de forma ilegal, pelo simples motivo de estarem ali apoiando os pobres que lutam pelos seus direitos. Um apoiador que tentou entrar com uma caixa de pão para alimentar as crianças foi agredido e preso por policiais. A caixa de pão foi jogada no chão. Muitos policiais agiram de forma truculenta e arrogante. São calúnias as acusações que policiais colocaram no Boletim de Ocorrência para justificar as prisões. Um conselheiro do Conselho Estadual dos Direitos Humanos – CONEDH - e membro da Comissão Pastoral da Terra foi agredido verbalmente e fisicamente por militares. Teve a calça rasgada e saiu com escoriações no pescoço.
Um capitão que estava comandando a operação nas primeiras horas revelou-se muito nervoso e sem equilíbrio emocional, requisito imprescindível ao exercício de autoridade nesses momentos de conflito. Não aceitou conversar com lideranças que estavam lá tentando negociar e intermediar uma saída que fosse justa e pacífica. Negou-se a atender ao telefone a Sub-defensora Geral da Defensoria Pública do estado de Minas Gerais.
Foi injusto também o grande aparato repressivo usado. Mais de 100 policiais (do GATE, GEPAR, Tropa de choque etc), inclusive, helicóptero com vôos rasantes. Congelamento da área. Muitas pessoas que queriam se solidarizar foram impedidas de entrar na ocupação. Houve vários abusos de autoridade por parte de alguns policiais. Infelizmente, o militarismo ainda está muito arraigado em integrantes da polícia. É triste testemunhar o tanto que usam e abusam da autoridade. Tornam-se autoritários e, assim, pisam na dignidade do povo pobre que está ali lutando por direitos humanos, que são direitos sagrados. “Queremos apenas um pedacinho de terra para construirmos uma casinha para a gente viver. Não queremos nenhuma mansão. Somos humanos, não somos cachorros. Por que não podemos viver com dignidade?”, cobrou dona Maria, uma indígena do povo Pataxó, que após ser expulsa por latifundiários da terra do seu povo lá no Sul da Bahia, teve que tentar a vida na grande cidade com sua família. Agora, ao lado de outros 26 parentes Pataxós participam da nova Ocupação Eliana Silva.
É principalmente a necessidade que anima os pobres para se unirem e ocupar terrenos abandonados. É bom lembrarmos que o déficit habitacional em Belo Horizonte está acima de 150 mil casas. O prefeito Márcio Lacerda não fez nenhuma casa para famílias de zero a três salários-mínimos pelo Programa Minha Casa Minha Vida. O Programa Vila Viva, que em grande parte é Vila Morta, expulsa para a periferia da região metropolitana 40% das famílias que estão em favelas onde o Programa se instala. As famílias reassentadas em apertamentos, em “caixotes” conforme o povo diz, não agüenta ficar ali por vários anos. No 1º dia de inscrição para o Programa Minha Casa Minha Vida, há 3,5 anos, 198 mil famílias se cadastraram. A Prefeitura constrói, no máximo, mil casas por ano. Assim, serão necessários quase 200 anos para zerar o déficit habitacional na capital mineira.
É bonito ver a organização interna da nova Ocupação Eliana Silva. O povo está organizado em Núcleos e há muitas Comissões trabalhando: a) de Estrutura, b) de Segurança, c) de Creche, d) de Limpeza, e) de Coordenação, f) de Cozinha, g) de Doações, h) de Comunicação, i) de Apoio externo etc. “Somos uma só família”, dizem todos.
Ao participar do soerguimento de Eliana Silva - Ocupação Eliana Silva ressurgindo das cinzas -, retomando a luta, “metendo o pé no barranco”, para transformar a sexta-feira da paixão, que foi o despejo dias 11 e 12 de maio último, em um domingo de ressurreição, com os olhos do coração, vi cenas inesquecíveis: garra, coragem, união, solidariedade, audácia, entre as quais, a descrita no depoimento de Paulo Silvestrini, que transcrevo, abaixo.

“Hoje (25/08/2012) reergueu-se Eliana Silva. Em uma batalha muito forte: homens, mulheres, crianças, jovens e idosos, resistiram às investidas de uma polícia violenta, formando com o próprio corpo um cordão humano para conter o avanço das tropas. Policiais agindo com total desrespeito aos direitos humanos, visando a destruição do acampamento, ameaçaram a integridade física de quem estava lá, chegando a agredir com empurrões, prisões sem fundamento, e verbalmente com deboches e ameaças.

Eu nunca havia participado de uma ocupação e até certo momento não estava muito certo do que estava fazendo. Estava amedrontado, temendo por minha vida e pensando se aquilo realmente valia a pena. Foi quando enquanto segurava uma faixa, percebi que ao meu lado uma criança de mais ou menos 8 anos, veio por conta própria segurá-la. A frente dos policiais, olhava para eles fixamente. Um olhar firme e determinado. Um olhar de quem não tinha mais nada a perder, de quem foi abandonado, assim como o terreno em que pisava, por um governo corrupto, por uma sociedade miserável. Fisicamente, tudo o que ele tinha contra aquele batalhão com cassetetes, armas de fogo e escudo, era o seu pequeno e frágil corpo. Mas o que ele tinha por dentro o fazia maior que qualquer outro homem fardado naquele local. Chorei naquele momento e pensei: esse menino não tem para onde ir, mesmo se eu me machucar aqui, daqui a algumas horas voltarei para o conforto da casa onde moro, e ele? Se não fosse retirado a força no mesmo dia, teria de continuar no acampamento debaixo de uma lona, temendo a todo instante um ataque policial.

Depois daquele instante integrei o cordão humano chegando a ficar frente a frente com a tropa de choque. Não havia mais em mim traços daquele ser egoísta de antes, estava determinado a morrer, pois, do que para mim valeria continuar levando uma vida ignorante, negando a realidade, vivendo uma falsa felicidade.

 Hoje (25/08) também é o dia do meu aniversário. Recebi meu melhor presente naquele terreno acidentado. Estar ao lado das pessoas da Ocupação Eliana Silva, ser uma delas. Tenho orgulho de dizer: Sou Eliana Silva!”

 

Eu também, Paulo, tenho orgulho de dizer: Sou Eliana Silva. Sou MLB. Se mexer com a nova Ocupação Eliana Silva, mexerá comigo e com muita gente que se comove com a dor dos empobrecidos e fica possuído por uma ira santa diante de tanta injustiça. A quem tem algum preconceito contra os pobres que levantam a cabeça, se unem, se organizam e partem para a luta pelos seus sagrados direitos humanos, sugiro: Vá visitar o povo nas ocupações. Puxe conversa, ouça e você experimentará o que Jesus de Nazaré viu e se alegrou exclamando: Quanta sabedoria![2] Enfim, a Ocupação Eliana Silva ressurgiu das cinzas e seguirá lutando pela construção de um mundo que caiba todos e tudo.

Belo Horizonte, MG, Brasil, 27 de agosto de 2012.

 





[1] Frei e padre carmelita, mestre em Exegese Bíblica; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina, em Minas Gerais, Brasil; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.brwww.gilvander.org.brwww.twitter.com/gilvanderluis - facebook: Gilvander Moreira

[2] Para mais informações, consulte www.ocupacaoelianasilva.blogspot.com  

terça-feira, 21 de agosto de 2012

1226- Contraponto Noticias especial - Cuba

Programa Contraponto Noticias Cuba:
Com a professora Tatiana Ribeiro de Souza; Virgilio de Mattos e José Luiz Quadros de Magalhães:

1- O sistema político Cubano com Armando Garcia Ramos:
http://www.youtube.com/watch?v=P2hruK1l-3I&feature=youtu.be

2- Conhecendo Cuba melhor com Virgílio Mattos. Entrevistas com brasileiro estudante de medicina em Cuba e com desenhista cubano.
http://www.youtube.com/watch?v=HSeXy80zNqE&feature=youtu.be

3- Entrevista com Ramon Venegas (Mongui) sobre a realidade cubana, o sistema de direitos sociais e a participação popular.
http://www.youtube.com/watch?v=iCN1FntrSEk&feature=youtu.be

4- Movimentos sociais em Cuba: Silmara
http://www.youtube.com/watch?v=_2CFZUxrMQQ&feature=youtu.be



domingo, 19 de agosto de 2012

1225- Entendendo um pouco mais - com Slavoj Zizek

Três livros para ler, com calma, refletir e discutir.
O esloveno, psicanalista e filósofo Slavoj Zizek nos provoca. É necessário sair do conforto que a ignorância e as certezas oferecem: duvidem.
O primeiro livro é "Violência", uma discussão sobre as violências subjetiva; objetiva e simbólica. Em geral as políticas públicas se encarregam de "combater" as manifestações da violência subjetiva, o que não vai, nunca, resolver nada, enquanto não transformarmos as estruturas que perpetuam as violências objetiva e simbólica.


O segundo livro é "Bem vindo ao deserto do real". Uma necessária reflexão sobre a ideologia, as mentiras, distorções e encobrimentos das mais variadas forma de poder.


Finalmente, por enquanto, o livro "As portas da Revolução", para pensarmos a iminente ruptura com um sistema socioeconômico que não tem como continuar.

Voltamos em breve com outras sugestões. Tem muita coisa boa lançada recentemente pela editora Boitempo. Para conseguir os livros acima e outros do Slavoj Zizek; Alain Badiou; Domenico Losurdo; Immanuel Wallerstein; Giorgio Agambem entre outros visite a loja do Cebola: Rua Antonio de Albuquerque, 749, loja 14, Savassi. Telefones (31) 3282-1112; (31) 8609-1112 e (31) 9789-1780.

1224- O mensalão - entrevista com José Luiz Quadros de Magalhães

Programa Mundo Político sobre a Ação Penal 470
Entrevista com o professor José Luiz Quadros de Magalhães.
http://www.almg.gov.br/acompanhe/tv_assembleia/videos/index.html?idVideo=709450&cat=88

terça-feira, 14 de agosto de 2012

1222- Contraponto noticias - Venezuela

Programa Contraponto Noticias especial sobre a Venezuela -
Programa 2 - entrevista com Carina Santos com Virgilio Mattos; Tatiana Ribeiro de Souza e José Luiz Quadros de Magalhães.
http://www.youtube.com/watch?v=ofD48Z9qeiE&feature=youtu.be

Programa 1 - com Virgilio Mattos; Tatiana Ribeiro de Souza e José Luiz Quadros de Magalhães:
http://www.youtube.com/watch?v=J48_K7tY-Vo&feature=plcp

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

1221- Eleições na Venezuela


Chávez en campaña
Le Monde Diplomatique
Es la decimocuarta. Desde que ganó sus primeras elecciones presidenciales en diciembre de 1998, Hugo Chávez se ha sometido ya –directa o indirectamente– trece veces al sufragio de los electores de Venezuela. Casi siempre ha ganado (1), en condiciones de reconocida legalidad democrática, avalada por las misiones de observadores enviadas por las instituciones internacionales más exigentes (ONU, Unión Europea, Centro Carter, etc.).
El sufragio del próximo 7 de octubre constituirá pues la decimocuarta cita del mandatario con los ciudadanos venezolanos (2). Esta vez, lo que se juega es su reelección a la presidencia. La campaña electoral oficial arrancó el pasado 1 de julio con dos singularidades notables con respecto a precedentes votaciones. Primero, Hugo Chávez está saliendo de trece meses de tratamiento contra el cáncer detectado en junio de 2011. Segundo, la principal oposición conservadora apuesta esta vez por la unidad. Se ha reagrupado en el seno de una Mesa de la Unidad Democrática (MUD) que, después de unas primarias, eligió como candidato, el pasado 12 de febrero, a Henrique Capriles Radonski, un abogado de 40 años, gobernador del Estado Miranda.
Hijo de una de las familias más ricas de Venezuela, Henrique Capriles fue uno de los artífices del golpe de Estado del 11 de abril de 2002 y participó, junto con un grupo deputschistas, en el asalto a la embajada de Cuba en Caracas (3). Aunque procede de la organización ultraconservadora Tradición, Familia y Propiedad (4) y es apoyado por los sectores más derechistas (entre ellos los medios masivos de comunicación privados que siguen ­dominando ampliamente la información), Capriles hace hábilmente campaña reivindicando todos los logros sociales del gobierno bolivariano. Y hasta jura que su modelo político es el izquierdista del ex Presidente brasileño Luiz Inácio Lula da Silva (5)... Pero, sobre todo, apuesta por el debilitamiento físico del Presidente ­Chávez (6).
En esto se equivoca. El autor de estas líneas, presente el pasado mes de julio en Venezuela, siguió las dos primeras semanas de campaña del Presidente, conversó varias veces con él, asistió a algunos de sus extenuantes mítines multitudinarios. Y puede testimoniar de su buena salud y de su excepcional forma física e intelectual.
Desmintiendo las falsas noticias que han circulado en algunos medios de comunicación (The Wall Street Journal, El País) según los cuales, a causa de supuestas “metástasis en los huesos y en la espina dorsal”, le quedarían apenas “seis o siete meses de vida”, Chávez –que cumplió 58 años el 28 de julio– reveló para consternación de sus adversarios: “Estoy totalmente libre de enfermedad; cada día me siento en mejores condiciones”.
Y, a los que apostaban por una presencia virtual del líder venezolano en la campaña, les volvió a sorprender anunciando su decisión de “retomar las calles” y empezar a recorrer los rincones de Venezuela para alcanzar su tercer mandato: “Dijeron de mí: ‘Ese va a estar encerrado en Miraflores (el palacio presidencial) en una campaña virtual, por Twitter y vídeo’; se burlaron de mí como les dio la gana, pues aquí estoy de nuevo, retornando, con la fuerza indómita del huracán bolivariano. Ya extrañaba yo el olor de las multitudes y el rugir del pueblo en las calles”.
Este rugir, pocas veces lo he oído tan poderoso y tan fervoroso ­como en las avenidas de Barcelona (Estado ­Anzoátegui) y de Barquisimeto (Estado Lara) que acogieron a Chávez los ­pasados días 12 y 14 de julio respectivamente. Un océano de pueblo. Una torrentera escarlata de banderas, de símbolos y de camisas rojas. Un maremoto de gritos, de cantos, de pasiones, de arrebatos.
A lo largo de kilómetros y kilómetros, en lo alto de un camión colorado que avanzaba hendiendo la multitud, Chávez saludó sin descanso a los centenares de miles de simpatizantes que acudieron a verle en persona por vez primera desde su enfermedad. Con lágrimas de emoción y besos de agradecimiento hacia un hombre y un gobierno que, respetando las libertades y la democracia, han cumplido con los humildes, pagado la deuda ­social y dado a todos, por fin, educación gratuita, empleo, seguridad social y vivienda.
Para despojar a la oposición de la mínima esperanza, Chávez, en los largos discursos electorales que pronunció sin dar muestras de fatiga, empezó diciendo: “Soy como el eterno ­retorno de Nietzsche, porque en realidad yo vengo de varias muertes... Que nadie se haga ilusiones, mientras Dios me dé vida estaré luchando por la justicia de los pobres, pero cuando yo me vaya físicamente me quedaré con ustedes por estas calles y bajo este cielo. Porque yo ya no soy yo, me siento encarnado en el pueblo. Ya Chávez se hizo pueblo y ahora somos millones. Chávez eres tú, mujer. Chávez eres tú, joven, Chávez eres tú, niño; eres tú, soldado; son ustedes, pescadores, agricultores, campesinos y comerciantes. Pase lo que me pase a mí, no podrán con Chávez, porque Chávez es ahora todo un pueblo invencible”.
En sus intervenciones, no dudó incluso en criticar duramente a algunos gobernadores y alcaldes de su propio partido que han fallado en sus compromisos con los electores: “Me he convertido en el primer opositor”, declaró. Aunque también advirtió: “Uno puede criticar a la revolución, pero no puede votar a la burguesía; eso sería traición. A veces podemos fallar, pero tenemos en el corazón amor de verdad por el pueblo”.
Orador fuera de serie, sus discursos son amenos y coloquiales, ilustrados de anécdotas, de rasgos de humor y hasta de canciones. Pero son también, aunque no lo parezcan, verdaderas composiciones didácticas muy elaboradas, muy estructuradas, preparadas de manera muy seria y profesional, con objetivos concretos. Se trata, en general, de transmitir una idea central que constituye la avenida principal de su recorrido discursivo. En esta campaña va exponiendo y explicando metódicamente su programa (7).
Pero, para no aburrir, ni ser pesado, Chávez se aparta a menudo de esa avenida principal y realiza lo que podríamos llamar excursiones en campos anexos (anécdotas, recuerdos, chistes, poemas, coplas) que no parecen tener nexo con su propósito central. Sin embargo, siempre lo tienen. Y eso le permite al orador, después de haber aparentemente abandonado por bastante tiempo su curso central, regresar a él y retomarlo en el punto exacto donde lo dejó. Lo cual, de modo subliminal, produce un prodigioso efecto de admiración en el auditorio. Esa técnica retórica le permite declamar discursos de muy larga duración.
En sus recientes discursos electorales, Chávez compara las políticas de demolición del ­Estado de bienestar (cita, en particular, los brutales recortes realizados por Mariano Rajoy en España) que se están llevando a cabo en varios países de la Unión Europea y los importantes logros sociales de su gobierno empeñado en seguir “construyendo el socialismo venezolano”.
En sus catorce años de existencia (1999-2012), la Revolución Bolivariana ha conseguido, en el ámbito regional, considerables avances: creación de Petrocaribe, de Petrosur, del Banco del Sur, del ALBA, del Sucre (sistema único de compensación regional), de la Unasur, de la Celac, el ingreso de Caracas en el Mercosur... Y tantas otras políticas que han hecho de la Venezuela de Hugo Chávez un manantial de innovaciones para avanzar hacia la definitiva independencia de América Latina.
Aunque agresivas campañas de propaganda pretenden que, en la Venezuela bolivariana, los medios de comunicación están controlados por el Estado, la realidad –verificable por cualquier testigo de buena fe– es que apenas un 10% de las emisoras de radio son públicas, el resto, o sea el 90%, son privadas. Y únicamente el 12% de los canales de televisión son públicos, el resto, o sea un 88%, son privados o comunitarios. En cuanto a la prensa escrita, los principales diarios El Universal y El Nacional, son privados y sistemáticamente hostiles al Gobierno.
La gran fuerza del Presi­dente Chávez es que su acción ­concierne ante todo a lo social (salud, alimentación, educación, vivienda), lo que más interesa a los venezolanos humildes (75% de la población). Consagra el 42,5% del presupuesto del Estado a las inversiones sociales. Ha dividido por la mitad la tasa de mortalidad infantil. Erradicado el analfabetismo. Ha multiplicado por cinco el número de maestros en las escuelas públicas (de 65.000 a 350.000). Venezuela es hoy el segundo país de la región con mayor número de estudiantes matrículados en educación superior (83%), detrás de Cuba pero delante de Argentina, Uruguay y Chile; y es el quinto a ­escala mundial superando a Estados Unidos, Japón, China, Reino Unido, Francia y España.
El gobierno bolivariano ha generalizado la sanidad y la educación gratuitas; ha multiplicado la construcción de viviendas; ha elevado el salario mínimo (el más alto de América Latina); ha concedido pensiones de jubilación a todos los trabajadores (incluso a los informales y a las amas de casa) y a todos los ancianos pobres aunque nunca hayan cotizado; ha mejorado las infraestructuras de los hospitales; ofrece a las familias modestas alimentos, mediante el sistema Mercal, un 60% más baratos que en los supermercados privados; ha limitado el latifundio a la vez que favorece la producción del doble de toneladas de alimentos; ha formado técnicamente a millones de trabajadores; ha reducido las desigualdades; ha rebajado en más del triple la pobreza; ha disminuido la deuda externa; ha acabado con la antiecológica pesca de arrastre; ha impulsado el ecosocialismo...
Todas estas acciones, llevadas a cabo desde hace casi 14 años de manera ininterrumpida, explican el apoyo popular a Chávez, el cual promete en su campaña: “Todo lo que hemos hecho es pequeño con respecto a lo que vamos a hacer”.
He sido testigo de que millones de personas humildes lo ­veneran como a un santo. Él –que fue un niño muy pobre, vendedor ambulante de dulces por las calles de su pueblo–, repite con calma: “Soy el candidato de los humildes, y me consumiré al servicio de los ­pobres”. Seguramente lo hará. Una vez, la escritora Alba de Céspedes le preguntó a Fidel Castro cómo podía haber hecho tanto por su pueblo: educación, salud, reforma agraria, etc. Y Fidel simplemente le dijo: “Con gran amor”. A propósito de ­Venezuela, Chávez podría responder lo mismo. ¿Y qué ­contestarán los electores venezolanos? Respuesta el 7 de ­octubre.
Notas:
(1) Sólo perdió, por ínfimo márgen, el referéndum del 2 de diciembre de 2007 sobre un “proyecto de reforma constitucional”.
(2) Además de Hugo Chávez, otros seis candidatos se presentan a las eleciones del 7 de octubre: Henrique Capriles Radonski, por Mesa de la Unidad (MUD), Orlando Chirinos, por el Partido Socialismo y Libertad (PSL), Yoel Acosta Chirinos por el partido Vanguardia Bicentenaria Republicana (VBR), Luis Reyes Castillo por la “Organización Renovadora Auténtica” (ORA), María Bolívar por el Partido Democrático Unidos por la Paz y la Libertad (Pdupl) y Reina Sequera por el partido Poder Popular (PP).
(3) Léase Gilberto Maringoni, “En Venezuela, Chávez sigue favorito”, Le Monde diplomatique en español, mayo de 2012. Léase también: Romain Mingus, “Henrique Capriles, candidat de la droite décomplexée du Venezuela”, Mémoire des luttes, 28 de febrero de 2012. http://www.medelu.org/Henrique-Capriles-candidat-de-la
(4) Fue cofundador de su rama venezolana.
(5) Lula le envió, el pasado 6 de julio, a Chávez, un mensaje público en el que le aportó pleno apoyo en su campaña electoral, afirmando: “Tu victoria será nuestra victoria”.
(6) A mediados de julio pasado, las principales encuestas de opinión daban un ventaja a Chávez de entre 15 a 20 puntos sobre el candidato de la derecha Henrique Capriles.
(7) Propuesta del candidato de la patria Comandante Hugo Chávez para la gestión bolivariana socialista 2013-2019, Comando Campaña Carabobo, Caracas, junio de 2012.