terça-feira, 30 de agosto de 2011

661- Educação pública, gratuita e de qualidade para todos - no Chile e em todos os lugares

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660- Herdeiros da Cidade Industrial - Coluna do Frei Gilvander

Nota à sociedade de Belo Horizonte - 29/08/2011.
 
Herdeiros da Cidade Industrial ocupam
Plenário da Assembleia Legislativa de MG
Cerca de 100 pessoas das famílias Abreu e Hilário, que há 70 anos foram expulsas de suas terras para que o Estado de Minas Gerais implantasse a Cidade Industrial nos municípios de Belo Horizonte e Contagem, ocuparam esta manhã, dia 29/08/2011 (Segunda-feira) o Plenário da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Elas prometem não deixar o local, até que o governador Antônio Augusto Anastasia agende uma reunião para discutir o pagamento de indenização aos herdeiros dos fazendeiros desapropriados.
A ocupação ocorreu durante debate público da Comissão de Direitos Humanos que discutiu o descumprimento de decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que em 2010 condenou o Brasil pelo desaparecimento de guerrilheiros no Araguaia durante o regime militar. O presidente da Comissão, deputado Durval Ângelo (PT), que há anos acompanha o caso, apoiou a mobilização dos herdeiros. “É um absurdo o governo protelar por tanto tempo o pagamento das indenizações. As famílias foram expulsas de suas terras com violência e deixadas à própria sorte. Muitos dos que faziam jus à indenização morreram na miséria e vários herdeiros vivem em condições muito difíceis, inclusive em favelas. Além de ser imoral, é um afrontoso desrespeito a decisão judicial, pois desde 1957, já há sentença transitada em julgada para que o governo pague”, protestou o parlamentar.
Representantes das duas famílias denunciaram o que denominaram submissão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais ao Poder Executivo e afirmaram que todo juiz que se pronuncia favoravelmente às famílias é promovido ou retirado do processo.
Ainda segundo Durval Ângelo, o Projeto de Lei 749/11, de sua autoria, autoriza o Poder Executivo a pagar a indenização às famílias. Ele foi apresentado em março deste ano e enviado, em julho, à Secretaria de Estado de Fazenda para que se manifeste sobre sua viabilidade. O mesmo projeto já havia sido apresentado pelo deputado na legislatura anterior, mas não chegou sequer a receber parecer de 1º turno na Comissão de Constituição e Justiça.
São mais de 1.300 os herdeiros que estão esperando a indenizãção. Muitos já morreram e muitos sobrevivem em condições precárias.
Um abraço afetuoso. Gilvander Moreira, frei Carmelita.
e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
www.gilvander.org.br
www.twitter.com/gilvanderluis
skype: gilvander.moreira

659- Artigo: Tela Quente por Ricardo Antunes

Tela quente

RICARDO ANTUNES



A percepção de que os de cima saqueiam o Estado, fazendo minguar recursos para saúde e educação, chegou à periferia: a tela está ficando quente


O ano de 2011 começou com a temperatura social alta: na Grécia, várias manifestações se sucederam, repudiando o receituário da constrição de tudo que é público em benefício das grandes corporações. E a pólis moderna presenciou uma nova rebelião do coro.
Depois, veio a revolta no mundo árabe: cansados do binômio ditadura e pauperismo, riqueza petrolífera e fruição diamantífera dos clãs dominantes, a Tunísia deu o pontapé inicial. A forte revolta popular, com boa organização sindical, derrubou a ditadura de Ben Ali.
Os ventos rapidamente sopraram para o Egito: manifestações plebiscitárias diuturnas na praça Tahrir, conectadas pelas redes sociais, exigiam dignidade, liberdade e o fim da ditadura de Mubarak.
Seguiram-se manifestações na Argélia, na Jordânia, na Síria e na Líbia, dentre tantas outras partes que ardem no mundo do combustível fóssil. E Gaddafi viu seu poder desmoronar.
Em março, explodiu o descontentamento da "geração à rasca" em Portugal. Mais de 200 mil em Lisboa, jovens e imigrantes, precarizad@s, sem trabalho e tratados como coisas. É emblemático o manifesto do movimento Precári@s Inflexíveis, que dá a sintomatologia desse quadro: "Somos precári@s no emprego e na vida. Trabalhamos sem contrato ou com contratos a prazos muito curtos. (...) Somos operadores de call-center, estagiários, desempregados, (...) imigrantes, intermitentes, estudantes-trabalhadores (...) Não temos férias, não podemos engravidar nem ficar doentes. Direito à greve, nem por sombras. Flexissegurança? O "flexi" é para nós. A "segurança" é só para os patrões.
(...) Estamos na sombra, mas não calados. (...) Com a mesma força com que nos atacam os patrões, respondemos e reinventamos a luta. Afinal, nós somos muito mais do que eles. Precári@s, sim, mas inflexíveis".
Seguiram-se os indignados da Espanha: o que dizer quando a taxa de desemprego para os jovens de 18 a 24 anos, segundo a Eurostat, é de 47%? A única certeza que eles têm é que, estudando ou não, são sérios candidatos ao desemprego, perambulando atrás de trabalho precário.
Enquanto isso, no Chile, as famílias se endividam, vendem suas casas para manter seus filhos nas universidades, quase todas privatizadas. É por isso que há no país um explosivo e maciço levante estudantil, com apoio dos pais, dos professores e da opinião pública, exigindo mudanças profundas. Depois foi a vez de a Inglaterra ferver. Começou na cordata Londres. Mais um trabalhador negro assassinado pela polícia, e os jovens pobres, negros, imigrantes e desempregados de Tottenham e de Brixton se rebelaram, sabendo que a polícia britânica é áspera quando a cor da pele é diversa.
Em poucos dias, atingiram Manchester e Liverpool. A percepção de que os de cima saqueiam o Estado, minguando os recursos para saúde, educação e previdência, chegou à periferia.
E é bom recordar, com Tariq Ali, que a polícia nunca foi responsabilizada pela morte de mais de mil pessoas sob sua custódia, desde 1990, sendo os negros e imigrantes presença recorrente.
Também é bom recordar que as revoltas contra o "pool tax" geraram grande descontentamento social e político contra o neoliberalismo, ajudando a selar o fim do governo de Thatcher.
Essa miríade de exemplos, que aflora tantas transversalidades entre classe, geração, gênero e etnia, é o sinal dos novos tempos.
A tela está ficando quente.

RICARDO ANTUNES, é professor titular de sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Seu novo livro, "O Continente do Labor" (Boitempo), está no prelo.



658- Coluna do professor Virgilio Mattos


MUITO OBRIGADO POR TUDO!
          Virgílio de Mattos


Queria poder dizer pessoalmente a você, meu camarada, FELIZ ANIVERSÁRIO, mas o dia 25 de agosto passou e, confesso, me esqueci disso completamente, obcecado com as tarefas mais urgentes. As tarefas mais miúdas são sempre as mais urgentes, não é verdade?
Mas de seus ensinamentos não me esqueço nunca das linhas gerais: direção, organização e estratégia. Talvez esteja confundindo a ordem.
Você fez 100 anos e como seria melhor o mundo com mais pessoas como você. Como teríamos um mundo melhor se os estudantes de direito, como você, tivessem um décimo da sua capacidade. Tá bem: um milionésimo da sua capacidade.
Você que sempre se utilizou do estudo e, sobretudo, do ensino do direito para organizar a todos na luta revolucionária.
Fedorentos franceses mataram sua esposa (1) mediante as mais indescritíveis torturas e sua cunhada foi guilhotinada. Mataram seu filho recém-nascido, seu pai (um camponês), duas de suas irmãs e outros familiares. Os idiotas pensaram que você se entregaria...
Em 7 de maio de 1954 você lhes imporia sua mais espetacular derrota, na batalha de Dien Bien Phu. Dos mais de 15 mil mercenários franceses, só 73 escaparam vivos. Você ainda prendeu mais de 10 mil, varrendo-os da Indochina de uma vez por todas.
Foi a primeira – e definitiva! - grande vitória de um povo pobre, colonizado e feudal, com uma economia agrícola primitiva contra os poderosos franceses e seus brothers estadunidenses que também seriam derrotados em seguida na Guerra Americana.
Os primeiros gringos justiçados caíram em 8 de julho de 1959, na base de Bien Hoa, a noroeste de Saigon. E você derrotou quatro presidentes, pessoalmente, inapelavelmente até que o sionista Kissinger, com o rabo gordo entre as pernas, foi obrigado a assinar a paz de Paris, em 1973. Por quê? Pelas sucessivas derrotas militares e pela opinião pública estadunidense, horrorizada com as transmissões de TV. Guerra ao vivo e em cores.
Seu clássico “Guerra Popular, Poder Popular” é um livro atual até hoje, basicamente uma guerra além de militar, econômica e política, feita não apenas pelo exército, mas por todo o povo.
Dali busco que “quando há uma desproporção tão grande de forças, o êxito da vitória se baseia na iniciativa, na audácia e na surpresa”.
Muito obrigado por tudo, Giap!

“Acompanhem este blog e derrotem o inimigo!”

(1) A tailandesa Dang Thi Quang.

domingo, 28 de agosto de 2011

657- Frida kahlo - pintura e cinema

Conheça um pouco mais sobre esta genial pintora mexicana, sua história, sua ideologia e sua arte.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Frida_Kahlo
Vejam um pouco de sua arte:
http://www.google.com.br/search?q=frida+kahlo&hl=pt-BR&client=firefox-a&hs=xuV&rls=org.mozilla:pt-BR:official&prmd=ivnsob&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=l9taTuP5AcHZgQfehcWYDA&ved=0CCQQsAQ&biw=853&bih=554#hl=pt-BR&client=firefox-a&hs=7cq&rls=org.mozilla:pt-BR:official&tbm=isch&q=obras+de+frida+kahlo&revid=76754465&sa=X&ei=SNxaTqXbJYLHgAft3LmTDA&ved=0CDcQ1QIoAA&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.&fp=74ac7de87644156a&biw=853&bih=554
Vejam o filme e conheçam um pouco sobre a história desta mulher apreciando ainda uma maravilhosa trilha sonora:

656- Escritos sobre os escritos de Augusto Vieira - Crônicas do Bala.

ESCRITOS SOBRE OS ESCRITOS DO BALA DOCE - AUGUSTO VIEIRA

DE PATRUS ANANIAS


                                        
ORELHA DO LIVRO NICO PORRETA
                                        Augusto Vieira é um grande contador de histórias, que na maioria das vezes têm a marca do humor e da alegria. Nico Porreta, novela forte e bem escrita, traz um registro diferente. É uma obra marcada pelo declínio e pela tristeza, mas profundamente brasileira, ora registrando momentos, ora integrando, na transcendência temporal, diferentes fases históricas.
                                        Nesse contexto emerge Nico Porreta. Criança nascida no Rio, criada pelos avós na Bahia, emerge como autêntico brasileiro em sua relação com  a vida, no seu esplêndido talento futebolístico que o leva à glória no Rio de Janeiro, e, nas palavras do autor, ao “Flamingo”. Essa é uma das boas características do humor de Augusto, que é alterar, com delicadeza, mas também com certa ironia e quase sarcasmo, o nome de instituições, organizações, times. Então, o Flamengo do Rio passa a ser “Flamingo”, onde Nico brilha, mas por um tempo curto.
                                        O autor capta muito bem o drama do futebol que vai muito além dos jogadores, que hoje ganham milhões. O futebol tem o seu lado trágico, sobretudo por ser um esporte de carreira curta, muito sujeita aos limites corporais. Nico Porreta interrompeu a sua carreira muito cedo, por questões físicas, mas daí emerge com uma razoável situação financeira.
                                        Teve uma relação esplêndida com o velho russo Putrior Iavelovsk, o “Puto Velho”, e com sua doce companheira. Nico, jogador de futebol, olheiro, namorador, sempre enrolado e traído por seus amores, se aproxima de lideranças comunistas e paga um preço alto, o preço da tortura que se tornou uma das marcas mais tristes da história recente do Brasil e um sinal permanente de até onde pode ir a perversidade e a insanidade humana.
                                        Depois volta à terra dos avós. Vive a dimensão política com intensidade. Defende os índios, defende os pobres. Luta contra interesses poderosos, interesses políticos na Bahia dominada por uma oligarquia que nós todos bem conhecemos nas últimas décadas. Fica próximo de ganhar as eleições. Perde. Perde mais uma vez um amor. Perde todo o dinheirinho que conseguira guardar, traído também por uma relação não devidamente formalizada.
                                        O final do livro traz um quê de tristeza, de melancolia, de destino não cumprido, de frustração que faz parte da caminhada do nosso povo. Hoje, felizmente, no Brasil, estamos conseguindo fazer com que os Nicos tenham melhores chances e possam continuar fazendo, pela vida, os gols que fizeram no futebol.
                                        Se o livro é uma denúncia dos desacertos do nosso País e dos tremendos desafios que enfrentamos, o crepúsculo melancólico de Nico traz, contudo, o anúncio de uma madrugada que vai chegando, que se expressa na solidariedade com que era tratado por seus semelhantes, no reconhecimento ao seu passado, às alegrias que proporcionara às pessoas, à sua luta.                                        
                                        O próprio Nico continua acalentando, seguramente, o sonho de um Brasil melhor, o Brasil que está chegando.

DE BERNARDO MATA MACHADO
                                      Augusto José Vieira Neto (Bala Doce) é, antes de tudo, um homem generoso. Convidado a escrever esta orelha, fiquei matutando: por que ele quis fazer um livro de memórias aos 53 anos de idade?
                                      Comecei a ler e entendi. Pura generosidade!
                                      Bala Doce quer nos servir, amigo leitor, um prato saboroso ainda quentinho. Temperado com boa pinga, bate-papo e “viola lerda”. Vez em quando um tira-gosto de jiló, uma estória amarga, logo rebatida por deliciosas anedotas.
                                      Mas o cabra também é esperto! Sabe que muita água ainda rolará. Há tempo para escrever um Livro de Memórias 2!
                                      Bala Doce herdou e renovou uma antiga tradição do sertão: a dos contadores de “causos”. Herdeiro porque viveu na roça, ouviu a fala musical sertaneja e curtiu a natureza reflexiva e brejeira dos rios do sertão. Renovador porque sua prosa é urbana, montes-clarense e balorizontina.
                                      Mas Augusto Vieira também é poeta trágico. A narrativa das peripécias desse juiz de Jequitinhonha, Ipanema, Pirapora, Betim e Belo Horizonte, é a história de em herói, que lutou contra a força quase indestrutível dos donos do poder. Que levou a boa nova da revolução pelo Direito, do Poder Judiciário que emana do povo, e que em seu nome é exercido.
                                      Esse mesmo Augusto José Vieira Neto, o Augustão Bala Doce, o Bala, é quem diz: “minha coragem é só cívica”. Esta, a síntese do homem-bala, do homem bom: o civismo. Em todos os seus sentidos. Civismo como sinônimo de patriotismo, valor que os mercadores de plantão dizem estar fora de moda!?!?! Civismo como devoção ao interesse público: advogado “pés no chão”, não fez do saber objeto de riqueza ou poder. Civismo como teoria dos direitos naturais à vida e à liberdade: bandeiras de luta contra toda a opressão.
                                      Criança ainda, Dutim (o Doce) estimulado pelo pai (Nonô) abriu a portinha da gaiola e soltou os passarinhos: “aos primeiros vôos, baixos, desengonçados e curtos, sucediam outros, mais altos, firmes e longos, até desaparecerem nas copas das árvores. Com os olhos tentava acompanhar o destino de cada um, mas a emoção não permitiu. Invadiu-me a fumacinha da liberdade...”
                                      Balorizonte Memórias é um canto de amor à vida e à liberdade.

DE MÁRCIO AUGUSTO SANTIAGO


                                                                            O pensamento hegemônico que nos assola tenta passar a idéia que o século XXI resolverá todos os problemas da humanidade, que serão novos e diferentes dos existentes.
                                      Devemos esquecer o presente e o passado, como se o futuro prescindisse deles, pois tudo será novo, inclusive as relações humanas.
                                      Bala Doce volta a resistir e enfrentar falsos moedeiros, demonstrando-nos que se preparou para o XXI, embalado por aqueles valores que sempre carregou: rebeldia contra os poderosos e a fala corajosa contra as falsas vestais e moralistas de plantão.
                                      Ousar lutar e vencer sempre – como nos determinou o querido Zé Roberto – desde sua juventude em Montes Claros, passando pela resistência à ditadura, seu período na magistratura e agora sua militância na política, guiado na busca da democracia e da solidariedade.
                                      É este o futuro que esperamos e lutamos, todos seus companheiros da jornada humana.
QUARTA CAPA DO LIVRO VOU TE CONTAR
VIVENDO ENTRE CARRAPICHOS E TIRIRICAS
                                      Arguto observador da fauna e flora humanas, Bala Doce em suas caminhadas pessoais e profissionais nos dá autêntica e sensível receita para evitar pragas e venenos que nos cercam cotidianamente.
                                      Com o coração e alma corajosos e delicados, Bala, desde o convívio com seus amigos e caminhantes já enunciava a teia que se enredaria em sua prosa.
                                      Viver livre e sem preconceitos é a melhor maneira para compreendermos a verdadeira condição humana.
                                      Trasladar para o texto escrito tais virtudes é a obstinada tentativa dos seres de bem em navegarem até o inafastável porto final em águas perenes e límpidas, dando sua contribuição para a convivência fraterna entre os humanos.
                                      Citando Drummond, o compromisso do Bala é com o aqui e o agora, levando apenas o intenso amor por tudo e por todos, principalmente por todas.
                                      Carrapichos e tiriricas retirem-se, pois o solo humano pertence àqueles que o amam e nele plantam e colhem bons frutos.
                                      Longa vida, Bala!
DE SÉRGIO DE SOUZA ARAÚJO


                                                                            O autor percorre a História para mostrar a evolução da concepção de cidadão. Tanto na Grécia, em Roma, e durante a Idade Média a cidadania foi um atributo restrito à elite.
                                      Traz idéias geniais que são fruto da vasta experiência do advogado criminalista, do magistrado e professor universitário.
                                      Notável a intuição do autor no sentido de atribuição de competência aos Juizados Especiais Criminais, com plantão diário permanente. Haverá turnos de 24 horas, para o recebimento de comunicações de prisões em flagrante. Será possível, assim, a correção imediata das prisões ilegais e a expedição in continenti dos alvarás de soltura. Sugere e postula outros expedientes para a tutela imediata e eficaz da liberdade.
                                      Em tudo que escreve irradia o autor o ideal maior da liberdade. A liberdade não nos foi dada por uma elite, mas conquistada por todos nós e merece ser formalmente preservada
na Lei Fundamental.
                                      Pequenos frascos podem conter grandes essências. É o caso deste livro. Este opúsculo do Dr. Augusto José Vieira Neto é um grandioso discurso que não se destina apenas a
uma academia de juristas, mas tem vocação sobretudo para ser a cartilha do cidadão consciente e moderno.

DE FRANCISCO JOSÉ LINS DO REGO SANTOS


                                                         Para nosso regozijo, Bala Doce nos brinda com seu novo livro de “causos”. São pequenas histórias – narradas com encanto e magia – em que discorre com maestria sobre personagens pitorescos destas e de outras paragens. Como o impagável Antônio de Sá, baiano da terra de Castro Alves e Rui Barbosa, em cuja poesia e verve nos inspiramos, para dizer que jorra “neste livro, em lanço por lanço, o manancial infindável de uma literatura sadia e confortável, pura e boa, agradável e escorreita”.
                                      Augustão Bala Doce, grande figura humana forjada na estrada de chão e vida MOC-BALORIZONTE, nos serve de seus deliciosos “causos” com os próprios predicados – a simplicidade, a empatia e a autenticidade.
                                      Na sua ditosa linguagem há o resgate da mineiridade perdida, não aquela que tão injustamente vem emprestar nome à política dissimulada e matreira. Mas o mineirismo do homem do sertão, que faz da terra a extensão do próprio corpo, e da casa sua e dos amigos o lugar onde coabita o coração.
                                      No contexto em que vivemos – um mundo de injustiça e violência, de miseráveis e oprimidos – as histórias do Bala vêm nos propiciar o reencontro com o lado aprazível das coisas, com as antigas raízes que ainda vicejam nos vilarejos do interior, aromatizadas com pingas e pitangas, doces de coco e pequis.
                                      Nos acordes do Bala matamos a “sodade”, rememorando cantigas e modinhas, embaladas por violas e luares. Mas que desde já fique um alerta: “não são causos pra boi durmi, num sinhô, inté o contrário, são causos pra se acordá”, para redescobrir em nós mesmos o gosto pelas boas e deliciosas histórias da vida.

DE JADER DE OLIVEIRA


                                      Eu o conhecia da prosa inspirada, divertida e da desinibição verbal com que trata novos amigos como se fossem todos antigos companheiros de infância. Só agora conheci o poeta cativante e virtuoso, que nos leva pela sua vida afora, contando histórias, ilustradas por um notável sendo de humor.
                                      Nestas Baladas, o nosso Augusto José Vieira Neto, o Bala Doce, nos apresenta a todos aqueles que fazem o seu mundo mais íntimo. Em cada descrição ritmada e animada, vamos ficando amigos dos personagens que ainda não conhecíamos e ao mesmo tempo enriquecidos pela vivência do poeta, um sábio na interpretação do pensamento humano.
                                      Como muitos dos seus amigos, encontrei-me com o Bala, pela primeira vez, na rua da Bahia. Presença exuberante, homem de sinceridade irrepreensível, ele marcou este nosso primeiro encontro, no qual agitava um livro de contos, com um rol infindável de notícias e episódios que ouvi com curiosidade de repórter.
                                      O poeta explora as emoções humanas com uma sonora gargalhada, que parece implícita em cada verso. Nestas Baladas, o contador de histórias faz da poesia uma ciência exata como a geometria, tal qual disse certa vez Gustave Flaubert. Pois o Bala é retilíneo nas palavras, persuasivo na narrativa e crítico na análise. Vale a pena percorrê-lo da primeira à última página destas Baladas.

DE JOSÉ BENTO TEIXEIRA DE SALLES

ORELHA DO LIVRO VOU TE CONTAR...
                                      Não é fácil o exercício literário da ficção, que exige, além de criatividade, segurança ao retratar as personagens, naturalidade nos diálogos e argúcia no encaminhamento do enredo, tudo isso independentemente da própria técnica expositiva que traça as linhas mestras da história.
                                      Muitos destes atributos só se revelam depois de certa experiência, que dá ao autor condição de se afirmar como bom ficcionista.
                                      As histórias se repetem, da mesma forma como se apresenta o autor, que sob o manto de frustrados amores, sempre se mostrou preocupado com os problemas sociais e as injustiças humanas de uma sociedade enganosa e pérfida.
                                      Na verdade, Augusto Vieira reafirma, através deste livro, sua inquieta e inquietante personalidade, deblaterando estruturas viciadas e seus instrumentos de opressão e iniquidade. Quem o conhece bem, sabe que ele é o herói do bom combate, afrontando resistências e incompreensões com uma autenticidade que vai de Quixote a Bayard.
                                      E há, nesta sua firme posição de independência, tamanha sinceridade, que é fácil identificá-lo, antes de mais nada, como uma grande figura humana, neste pequeno mundo em que vivemos, pleno de mesquinhez e ilusões.

DE NADIM BECHARA ANDERE
                                      Desta vez Bala Doce nos brinda com as Venturas e Desventuras de Nico Porreta, um retrato bem nítido dos anos sessenta e de toda a parafernália dos governos e desgovernos que, por sucessivas décadas, desenharam os nossos destinos e as nossas condutas.
                                      Já lembrava TAINE que só se lê bem um livro, depois da terceira leitura. Nico Porreta não foge à regra. Fica mais delicioso nas releituras.  A crescente surpresa está na redescoberta do personagem que vive em todos nós, os mesmos sonhos, percalços e desventuras daquela geração dos anos de chumbo.
                                      Mesclando ficção e realidade, Nico Porreta nos remete, a todo tempo, ao autor em sua vivência e experiência pessoal, não há como disfarçar.
                                      A propósito, não são escritos de tese, e sim de ambientes. E por isso, da terceira leitura em diante é que melhor percebemos os sonhos, a alma, os anseios e receios, as desventuras e as meias realizações do personagem Nico e companheiros. Ao retomarmos a leitura é que vislumbramos o quanto há de nós no seu dia-a-dia.
                                      Bala Doce, mais uma vez, não escrevera para impressionar — apenas escreveu! Para relatar, ousamos dizer, o que viu, sofreu e sentiu...
                                      Para, afinal, dizer como o filósofo, “nada que é humano me espanta”.
                                      Meu amigo Bala, omissão é que nos espanta!
                                      Até o próximo e bons fluidos!

DE ROBERTO ELÍSIO DE CASTRO SILVA
 
SOBRE O LIVRO BALA 60
                                      Augusto Vieira, que tantos amigos já consagraram como Bala Doce, desde os tempos em que doce se escrevia com acento circunflexo, não é um escritor segundo os moldes tradicionais. Ele se diferencia, porque simplesmente conversa com a vida por escrito, pensa por escrito, narra por escrito, sonha por escrito e se apaixona por escrito. A ele se aplica, integralmente, a velha frase: sua vida é um livro aberto.
                                      Poeta, contador de histórias, seresteiro, instrumentista, fazedor permanente de amigos, homem da lei diplomado pela vetusta Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, boêmio na mais carinhosa dimensão do termo, nasceu, sobretudo, para amar. Exatamente por essa razão, costuma, às vezes, apanhar, nas esquinas misteriosas desse belo sentimento.
                                      Dele já se disse — se não me engano a frase é de Fausto Matta Machado — ser um apaixonado pela paixão, certamente inspirado pelos versos que Orlando Silva, o eterno “Cantor das Multidões”, imortalizou com sua voz inigualável: “... /Quem nunca chorou, certo nunca amou/Talvez nem alma tenha para sentir/Não me causa inveja esse prazer/Eu gosto até de padecer/ Chorar é a mágoa em pérolas diluir”.
                                      É essa extraordinária figura humana, pescador incansável de afetos, que nos chega agora com o “Bala 60”, numa alusão à chegada dos seus 60 anos de idade, mas que pode, tranqüilamente, ser interpretado em outro sentido: “Bala 60 – o calibre do amor”.
                                      A presente edição, evidentemente que revista e ampliada, contém uma coletânea de sua obra literária. São dezenas de artigos e crônicas, contos, estórias, poemas, memórias e dois romances de ficção (“Romântico” e “Venturas e Desventuras de Nico Porreta”).
                                      Ao publicar “Bala 60”, Augusto Vieira faz uma viagem em torno de sua vida fascinante, começando pela terra natal, a suave Montes Claros, passando pelo exercício corajoso da militância ideológica de esquerda nos tempos do regime militar, a experiência como advogado e juiz de direito, para agora, já aposentado no serviço público, dedicar-se por inteiro ao cultivo da vida, antes que ela passe por ele e por todos nós, seus incorrigíveis amigos e intransigentes admiradores.
                                      Seu novo livro é uma viagem no tempo, em que o talento, o poder narrativo e a força da inteligência decidiram se assentar a seu lado. Lendo-o, estaremos todos embarcando nessa verdadeira locomotiva de sentimentos puros com que Augusto Vieira transforma o ato de viver. E de amar.
                                      Daqui a mais outros 60 anos, talvez o também poeta Augusto Vieira morra assim: de livro em livro, de amigo em amigo, de mesa em mesa, alternando sorrisos e raivas. Principalmente, porém, de paixão em paixão, porque seu coração imenso, entre tantas virtudes humanas, “tem mania de amor”.
                                      Que Deus conserve.

SOBRE O LIVRO NICO PORRETA


                                      Augusto Vieira, que o carinho dos amigos transformou em Bala Doce no tratamento do dia-a-dia, não é apenas uma figura humana primorosa, conciliando no exercitar da vida a suavidade romântica dos boêmios dignos desse adjetivo e a severidade dos poucos que transformam a defesa do interesse público em instrumento de sua própria razão de ser. Augusto é assim, mas vai mais além, como escritor, jurista, pescador permanente de afetos e semeador incansável de bondade. Comparado à grandeza do coração, seu corpo – que é imenso – não consegue ser maior do que um simples grão de areia banhado pelas lágrimas do mundo, as mesmas que costuma derramar – e abundantemente – quando a solidariedade a um amigo reclama o abraço de seu pranto.
                                      Sua vida é uma história de resistência às injustiças, às perseguições políticas, às incompreensões humanas e a qualquer forma de restrição à liberdade de alguém se exprimir segundo o que lhe recomenda a consciência. É um apaixonado incorrigível pelas rebeldias tão próprias da mocidade que se recusa a acomodar-se. É um humilde diante dos mais velhos, a cuja experiência de vida se curva, reverente, confessando-se em constante aprendizado.
                                      Contador inveterado de histórias, brinda agora o ambiente literário de Minas com o livro “Nico Porreta”, um personagem fascinante e quase singular, como fascinante e quase singular é também o poder narrativo do autor.
                                      Vamos viajar com eles. Com “Nico Porreta” e com Augusto Vieira.


DE CARMEM NETTO VICTÓRIA


                                      Acabei de ler o livro “Bala 60”, de Augusto José Vieira, para mim Augusto de Maria Helena e Nonô, que conheci ainda bebê na Chácara Varginha, onde fui muitas vezes em companhia de Tia Tê, amiga-irmã de sua mãe.
                                      “Todo ser humano tem uma grande história para contar dentro de sua própria história de vida. Recordações que podem ser ativadas pelo gosto, pelo cheiro e pela fala em torno de uma época, e são lembranças que resgatam esse sentimento de importância que foi a vida de cada um.” Assim de memória em memória, entre lembranças suaves ou dolorosas, a história de nossa Montes Claros e de outros tempos vai se construindo em livros como “Bala 60”. Junto com a memória da infância e adolescência uma certa indignação, seja poética ou política de defesa da dignidade do lugar onde nascemos.
                                      Augusto utiliza-se da palavra, arma que domina bem e com ela ensarilha lanças. Não a palavra vazia, mas a palavra plena de vida que enobrece o ser humano quando relata os percalços e as vitórias de sua caminhada.
                                      Escreveu o enredo de sua vida com a maior nobreza. Despiu de todas as máscaras, mostrou sua essência com coragem e transparência. Arrancou couraças, foi exemplar na sua sinceridade, mesmo nos momentos mais delicados de sua trajetória, se retratou nas alegrias e dores humanas.
                                      Em Bala 60, é o memorialista sagaz e crítico, expõe sua vida sem condescendências. Fala do amor, da família, da educação, do trabalho, da cultura com palavras doces, cortantes, corajosas, saudosas, engraçadas inserindo no contexto descrições políticas e sociológicas.
                                      Suas lembranças, apesar de algumas mágoas, são um poema de amor. É preciso amar para desafiar lembranças. E como me emocionei com suas lembranças! Dona Zizinha, Seu Donato, Consuelo, Geraldo Mirabeau e todo aquele universo das ruas Presidente Vargas e Afonso Pena onde também vivi. Nossas famílias ligadas por fortes laços de amizade. Minha avó Marieta e sua avó Zizinha, amigas inseparáveis, pertenciam à Associação das Mães Cristãs e do Apostolado do Coração de Jesus. Eu adorava levar qualquer coisa para Dona Zizinha, só para entrar no seu jardim, o mais bonito da cidade! Dizem que os jardins revelam a alma das pessoas. O Jardim de Dona Zizinha cheirava a jasmim, as cores das flores se misturavam: rosa, carmim, grená, lilás, amarelo formando uma sinfonia que de repente transformava num quadro de Monet. E, ali entre plantas e folhagens, ela levitava e ia para universos que não estavam ali.
                                      E a “Sapataria Nossa Senhora de Fátima”, do querido amigo “Tião Boi”! Cheia de meninos, adolescentes, rapazes discutindo futebol, falando de amores platônicos e sonhos, sob as normas rígidas do proprietário que não permitia o mais inocente palavrão...
                                      Vovô Mundim e “Seu Donato”, diariamente na Agência Lotérica, apreciando a vida acontecer na Presidente Vargas com Simião Ribeiro.
                                      O futebol na Pracinha da Igreja do Rosário, espaço que era de todos os meninos e onde meu irmão Paulo, chamado não sei porquê de “Paulinho cães” entortou suas pernas de tanto jogar futebol.
                                      Que saudade de Consuelo, amiga-irmã de minha mãe, a pessoa mais vaidosa que conheci, e por este motivo, no seu ritual de arrumar-se atrasou o casamento do sobrinho. E o Sputinique que salpicou de pólvora o rosto de Geraldo Mirabeau, seu primo carioca!
                                      Tantas lembranças! O vozeirão de Nonô entrando em casa, o capricho, a limpeza e os cuidados de Maria Helena com o casarão...
                                      E as poesias! Lindas no jeito espontâneo de transformar em poemas seu cotidiano, sua família, seus amigos.
                                      Parabéns Augusto, o que você viveu ninguém rouba. Não se é guarda-livros da vida para juntar “Deve e Haver”. Vive-se. Não se faz contabilidade para anotar prejuízo ou lucro. Viver apenas é maravilhoso!

DE PETRÔNIO BRAZ

SOBRE A OBRA LITERÁRIA
                                      Clarice Lispector em “Perto do Coração Selvagem”, seu primeiro romance, observa que “mesmo os grandes homens só são verdadeiramente reconhecidos e homenageados depois de mortos.  Por quê? Porque os que elogiam precisam se sentir de algum modo superior ao elogiado, precisam conceder”.
                                      Nessa linha de pensamento cabe lembrar que Nietzsche e Flaubert, por exemplo, somente foram reconhecidos após a morte. Discordando da necrofilia literária externada por Clarice Lispector, sou levado a afirmar que não estou concedendo, nem mesmo preciso me sentir superior a nenhum escritor destacado nessa série de publicações, porque não sou. Daí ser levado a reconhecê-los e homenageá-los em vida. Primeiramente porque merecem e, em uma segunda via, porque integram, pela inteligência e pelo talento, a alma do Norte de Minas, que precisa ser vista e conhecida.
                                      Pessoas há que marcam a sua presença pela irreverência, pela ousadia, pela sinceridade abusiva, que dizem o que pensam, no momento em que pensam, no local onde pensam. A fama do português Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765/1805) já ultrapassa os séculos. No Brasil, Laurindo Rabelo destacou-se pela vida boêmia, com seu grande talento sátiro e irreverencioso. No Norte de Minas Gerais, pela irreverência, pela ousadia, pela sinceridade abusiva, por dizer o que pensa, no momento em que pensa, no local onde pensa, destaca-se a figura insubstituível do acadêmico Augusto José Vieira Neto. A primeira vez que tive um contato direto com Augusto José Vieira Neto, o Augustão-Bala Doce ou simplesmente Bala-Doce, que todo o Norte de Minas conhece e admira, foi no Automóvel Clube de Montes Claros, na solenidade de posse do confrade Edgar Pereira na Academia Montesclarense de Letras.
                                      Augusto José Vieira Neto, membro efetivo da Academia Montesclarense de Letras, nasceu em Montes Claros, sendo filho de Norival Guilherme Vieira e Maria Helena Quintino Vieira. Relatando o namoro de seu pai com sua futura mãe ele diz: “Mas, voltando ao namoro de Norival, no dia 16 de maio de 1944, ele, com trinta e três anos, e Maria Helena, com pouco mais de dezoito (nascera no dia 13 de agosto de 1925), em festa de arromba, casaram-se e viajaram, em lua-de-mel, para o Rio de Janeiro, pela Panair do Brasil. Vó Zizinha acompanhou o casal. Não é que o velho boêmio, que ainda conservava mulher na zona, deixou a noivinha num hotel e foliou na “Cidade Maravilhosa”? Ainda assim, compreensiva, ela se entregou ao garanhão e tudo indica que, no que isto se deu, fui concebido, porque nasci, empelicado, numa manhã de domingo, 25 de fevereiro de 1945, na Santa Casa de Misericórdia de Montes Claros, pelas mãos de Irmã Beata e recebi o nome de meu avô paterno”.
                                      Advogado, magistrado, professor. Mas não é do magistrado, nem do professor e muito menos do advogado que desejo falar, mas do cronista e do escritor. Mas, antes, vejamos o apelido. Por que Bala-Doce? Poucos sabem a origem do cognome: Bala-Doce. Ele conta que em Montes Claros, no mês de junho, na Escola Normal, em 1958, quando cursava a terceira série ginasial e assistia, do fundo da sala, a uma aula de matemática, do Joãozinho Almeida, no primeiro horário, às sete horas da manhã. Ele, querendo agradar ao professor, jogou uma bala-doce, com o intuito de que ela caísse sobre sua mesa do mestre. Errou a pontaria e a guloseima bateu no ombro de Joãozinho Almeida, que estava de costas para os alunos e caiu em cima da mesa. O professor virou-se, nervoso, pegou a bala e disse: — Quem foi que jogou esta bala-doce em mim? Ele ficou calado. Ninguém se manifestou. Como o professor ameaçasse dar zero ao todos os alunos, ele resolveu entregar-se e disse: “Calma professor! Foi só uma balinha doce!” Seu colega Chico Cunha gritou: “Augustão Bala-Doce!" A alcunha pegou.
                                      Augusto José Vieira Neto publicou vários livros: “Estórias do Bala – Moderadamente”, “Estórias do Bala Volume 2”, “Casa do Direito – Ano XV”, “Judiciário Penal e Cidadania”, “Balorizonte”, “Bala XXI”, “Baladas”, “Bala 60”. As suas crônicas dariam alguns livros. Citarei apenas algumas: A homenagem do jornal “O Norte de Minas” – A bela vida de Theo – Orgulhosamente moquenho – Zé Amorim – “Ventos de Agosto” – Godofredo Guedes – D. José – Em minha aldeia para homenagear um mestre – Konstantin Kristoff – O luar de Montes Claros – A “lenda viva” – Mundinho Atleta – À querida e cibernética Ruth Tupinambá – Mestre Georgino – A “Casa de João Luiz de Almeida” – Cyro dos Anjos, meus filhos e a tia beata.
SOBRE O LIVRO NICO PORRETA 

                                            No último dia dez de outubro em curso, deste ano de 2009, Augusto José Vieira Neto, o Bala-Doce, lançou em Montes Claros os livros “Nico Porreta” e “Vou te contar...”, pela manhã no Café Galo e, logo depois, no Esquema. Estive nos dois eventos. Faltaram livros para quem queria.
                                      Já não sei em que atividade cultural e produtiva humana não encontro um descendente meu. Os filhos são onze e os netos somam já vinte e cinco. Para minha surpresa, no livro “Vou de contar...”, do Bala-Doce, deparo com meu neto Rodrigo Braz atuando como revisor. Porém, não é do “Vou te contar...” que quero falar, mas conversar acerca do “Nico Porreta”.
                                      Com sua bondade, de todos conhecida, o escritor Augusto Bala-Doce, que se inscreve no rol de meus amigos, que já foi advogado atuante, professor universitário, juiz de direito e procurador-chefe de defensoria pública, autografou-me um exemplar do “Nico Porreta”: “Petrônio. O mestre da civilização do São Francisco. Receba o Nico com meu mais profundo respeito”. Sou grato ao Bala-Doce pela deferência.
                                      Na orelha da capa, a título de prefácio, Patrus Ananias observa que “Augusto Vieira é um grande contador de histórias, que na maioria das vezes tem a marca do humor e da alegria. “Nico Porreta”, novela forte e bem escrita, traz um registro diferente. É uma obra marcada pelo declínio e pela tristeza, mas profundamente brasileira, ora registrando momentos, ora integrando, na transcendência temporal, diferentes fases históricas”.
                                      Manoel Hygino dos Santos, repetindo Oscar Wilde, afirmou que “não há bons ou maus livros, mas livros bem ou mal escritos”. “Nico Porreta” é um livro bem escrito.
                                      Augusto Bala-Doce abre o livro com o conto “Origens e primeiros amores”, que retrata a vida amorosa de todos os jovens, que viveram no romântico período que antecedeu a liberação sexual da mulher. O amor de Nico Porreta e Sofia, o primeiro amor de todas as vidas, de todas as juventudes, evaporou-se da vida do garoto como uma “nuvem passageira, desfeita no calor da arrogante atmosfera familiar”, mas a chama de todo primeiro amor nunca desaparece, mesmo quando transformada em cinzas, pois “elas aquecem a alma” quando dele nos lembramos. “Meu primeiro amor / foi como uma flor / que desabrochou / e logo morreu”.
                                      As narrativas têm como cenários a orla marítima da Bahia (Porto Belo e Belmontina), do antigo reino de Portugália e a turbulenta São Sebastião, a Cidade das Maravilhas (Rio de Janeiro), neste país que voltou a ser Vera Cruz, na identificação de Bala-Doce. Ouros Gerais seria Ouro Preto? Ele altera as denominações sem camuflar o reconhecimento, com certa dose de humor irônico, que Freud caracteriza como uma forma de enganar a censura e provocar o riso, fazendo-me lembrar o escritor português Mia Souto com o seu “Jesusalem”. “O humor é necessário para a vida humana.” (S. Tomás de Aquino).
                                      Ele descreve com propriedade o drama inicial de Nico Porreta na cidade grande e nos leva a acompanhar a sua evolução adaptativa, com o ingresso no universo futebolístico, ou mais precisamente nas fileiras do Flamingo (se for Flamengo é mera coincidência).
                                      Criado pelos avós, após anos de procura Nico finalmente se encontra com a mãe, a velha Angelina, e toma conhecimento do destino do pai. Em rápidas pinceladas de sua pena, ou melhor, em bem definidas premidas nas teclas de seu computador, ele relembra a euforia da Era JK, a bossa nova, o lançamento do Sputnik pelos russos, a Vera Cruz dos anos 50.
                                      De sua aproximação com Puto Velho, o trotskista Putrior Iavelovsk, advém a sua doutrinação marxista.
                                      Nico Porreta amou Larissa, amou Izadora, amou a prostituta Roberta que se parecia com Izadora, amou Elizabeth, mas rejeitou-a no altar, com um solene “não”. Sofreu incicatrizáveis dores de amor.
                                      O que mais de marcante se apresenta na vida de Nico Porreta, além das glorias do futebol e dos amores traídos, é a sua atividade política numa época de restrições à liberdade, de triste lembrança. Ele viveu intensamente uma vida cheia de ideologia e sofreu as amarguras da repressão, da tortura. Aqui, o livro de Bala-Doce é uma denúncia.
                                      Nem todo final é feliz.
                                      Fico por aqui e deixo aos futuros leitores a curiosidade de conhecerem o derradeiro ato da novela, o fechar do pano.

DE GEORGINO JÚNIOR
 

                                      A primeira vez que vi o doutor Augusto José Vieira Neto, o nosso queridíssimo Augustão-Bala Doce, ou o nosso Bala-Doce, ou o nosso amado e inestimável Bala, foi há zilhões de anos atrás.
                                      Há tantos zilhões de anos atrás, (há tantos mesmo) que eu ainda era menino. E Augustão era um jovem acadêmico de Direito que estava por aqui, de bobeira, (na sua aldeia, como ele diz), em período de férias do seu curso jurídico na UFMG. Foi num comício político, à noite, na praça coronel Ribeiro e o jovem acadêmico mandou ver, falou bonito. Empolgou a platéia. Perambulando por ali, (nem sei porque, eu, que era menino) escutei: é o Augustão Bala-Doce, moço! Aquele menino, sô! Ocê conhece... Aquele que estuda pra ser advogado, em Belzonte.
                                      Pois aquele menino gorducho e enorme que, estranhamente, diziam ser bom de futebol de salão e de basquetebol voltou pra terrinha, anos depois, unido à doutora Heloisa, no primeiro casamento, de mala e cuia, com todas as suas armas e bagagens.
                                      Militou no foro local, foi meu professor na Fadir, onde lecionou Direito Constitucional pra “Turma Maringá” que reunia alunos proficientíssimos e temidíssimos, como o Waldyr Senna Batista, por exemplo, que infundia medo e terror a qualquer desavisado que se atrevesse a nos aparecer, assim, de bobeira, pela frente, sem estar convenientemente preparado. Foi o primeiro professor com o tipão despojado de “schollar” (hoje tão em moda) que  encontrei na vida, capaz de proferir palavrões com a mesma naturalidade de quem, dentro e fora das salas de aula descia a ripa di-cum-força nos Atos Institucionais daqueles nossos (deles) desgovernos de generais militares.
                                      Conheço trocentas histórias folclóricas que cercam a figura de Augustão Bala-Doce. Todas impublicáveis, irreverentes e hilárias. Não vou contá-las.
                                      Vou contar que, certa noite, nos anos 80, saindo da Faculdade de Direito após às aulas, o Coronel, meu pai, aportou com Augustão Bala-Doce na minha casa modesta, escondidinha então ali, numa das esquinas do bairro Todos os Santos. Chegaram de surpresa.
                                      Foi uma festa arretada, com direito a comes e bebes (que eles mandaram pedir urgentemente ao Sílvio, do antigo Skema), festa arretada e surrealista com violões e leitura de poemas que o meu velho, querido e saudoso pai me fez desencravar pra me exibir, todo orgulhoso, ao seu fraterno e querido convidado. Naquela noite, meus filhos ainda pequenos, netos do Coronel, limitados ao pequeno orçamento doméstico, comeram à tripa forra, até se lambuzarem.
                                      Depois, Augustão virou Juiz de Direito. Fez bela carreira na magistratura mineira (que as Minas são muitas, como dizem os sábios) e sumiu do mapa.
                                      Agora, tanta coisa havida e acontecida, me vem uma crônica, cheia de lirismo, de Augustão Bala-Doce relembrando o convívio que teve com meu pai, (deixando de lado, delicadamente, as peraltices que, certamente, os dois devem ter aprontado após terem saído “alegrinhos” de minha casa) e relembrando também (por desencargo de consciência) a figura doce e severa de dona Dininha, minha mãe, que nunca os absolveu, nem os condenava.
                                      Se já era admirador e tiete de Augustão Bala-Doce, agora sou muito mais.
                                      Esta crônica de sábado é pra dizer a ele um muito obrigado. Em nome dos descendentes do Coronel e de dona Dininha. Obrigado pela lembrança. Pelo carinho. Pela amizade que o uniu tão fortemente ao meu pai. Acima das  diferenças ideológicas, os dois se amaram, se confraternizaram, se entenderam e se desentenderam muitas vezes. Foram cúmplices. Companheiros. Felizes. Celebrantes da amizade.
                                      Dizem que um famoso editor-chefe da imprensa nacional quando recrutava jornalistas pra trabalharem com ele seguia apenas um único e sábio critério: pra escrever na sua redação, o cara (ou o profissional, como queiram), tinha que reunir dois requisitos: ter bom texto e bom caráter.
                                      Augustão seria aceito imediatamente por esse redator-chefe. Além do bom texto com que sempre se expressou desde a juventude,  quando agitava as massas nos comícios da praça coronel Ribeiro lutando contra a ditadura, o seu coração de menino-grande é como uma forma humana e pulsante de bom caráter, por onde circula, minuto a minuto, as torrentes da sua alegria, da sua irreverência e, principalmente é o lugar onde ele esconde a sua fidelidade aos velhos amigos, (aqueles ingratos), que, como o meu pai, sem aviso prévio, um dia disseram-lhe adeus e o deixaram.

DE FELIPPE PRATES


                                      Com gentil e expressiva dedicatória, fomos presenteados pelo autor com o livro “Bala 60”, de Augusto Bala Doce Vieira, nosso ilustre e muito querido conterrâneo, um agradável registro dos seus primeiros sessenta anos de vida, em que encontramos uma feliz mistura de auto-biografia, crônicas, poesias, viagens e muito mais.  Na verdade, o cidadão Bala Doce “engoliu” o magistrado Augusto Vieira, emboramente a brilhante carreira profissional, hoje aposentado.  Assim, o doutor juiz já era e agora convivemos somente com a cativante figura humana do Bala Doce, esta sim, uma personalidade marcante e definitiva, um “mahatma”, como diria o notável escritor e cronista Raphael Reys *, o Rubem Braga do Cerrado que, a propósito, passou de satélite a planeta, tem luz própria e de há muito deixou de ser “cria” do grande Haroldo Lívio, nosso insuperável mestre.  Se um dia o Bala Doce saiu de nossa terra  –  a sua aldeia, como diz ele  –  para estudar e ser gente na vida, o que deu certo, a aldeia jamais saiu de dentro dele, nele repercutindo sempre. Ainda bem, pois juízes temos muitos, mas gente iluminada por alta sensibilidade, como ele, uma característica congênita, pouquíssima.
                                      A leitura mais aprofundada do livro “Bala 60” revela aos observadores mais sensíveis e argutos, que estamos na presença de um homem bom, apaixonado pelos amigos e pela família, um poeta da vida em tempo integral, sensível, emotivo e que, como nós, sofre de chorador desregulado.  Até quando apela um pouco, ele brilha, pois muito longe de ser chulo o nome feio é bem colocado.  Num dos belos momentos do livro, diz Bala Doce que o amor é o combustível que impulsiona a sua vida, a mais pura verdade, pois este livro foi escrito com o coração.  Fala de Montes Claros e contemporâneos com grande carinho e emoção, narrando inúmeras histórias engraçadíssimas vividas em nossa terra, no convívio com expoentes e tipos populares inesquecíveis, a quem homenageia com categoria, sem exageros, coisa rara, a eles se referindo com muita saudade e muita ternura.
                                      Há poemas belíssimos, emocionantes.
                                      Romanticamente evocativo, Bala Doce certamente ainda não se deu conta de que a saudade maior que sente é, sem dúvida, dele mesmo, não só da infância e da juventude, mas de todo um passado repleto de tanto amor.
                                      Parabéns, portanto, ao caro Bala Doce, este enorme e consumado boa praça, pelo seu ótimo “Bala 60”, um livro correto, muito bem escrito, de excelente apresentação gráfica, que temos a satisfação de recomendar aos apreciadores da literatura de qualidade.