domingo, 17 de abril de 2011

282- Teoria do Estado - O mito do Führer: como Hitler conquistou o povo alemão - Ian Kershaw

Hitler, assim como o seu partido (Nacional Socialista Operário Alemão) não era socialista, muito menos o seu partido defendia o operariado. Ao contrário, Hitler era financiado por grandes empresas alemãs, norte-americanos, inglesas entre outras. A idéias e as palavras, muitas vezes, propositalmente, não correspondem aos fatos. No mundo atual isto é muito mais comum do que parece.
Como diria Cazuza: suas idéias não correspondem aos fatos. A grande mídia cria um mundo artificial e contra-fático para uma parcela grande, especialmente para a classe média.
A seguir um texto excelente de Ian Kershaw:


O mito do Führer: como Hitler conquistou o povo alemão - parte 1

Ainda existiam muitos alemães céticos em relação a Hitler quando ele se tornou chanceler em 1933. Mas a propaganda do führer e o sucesso militar logo o transformaram em um ídolo. A adulação ajudou a tornar possível a catástrofe do Terceiro Reich

Ian Kershaw

"Hoje Hitler É Toda a Alemanha". A manchete de jornal de 4 de agosto de 1934 refletia a transferência vital de poder que tinha acabado de ocorrer. Dois dias antes, na morte do presidente do Reich, Paul von Hindenburg, Hitler não perdeu tempo em abolir a presidência do Reich e em fazer com que o exército prestasse um juramento pessoal de obediência incondicional a ele, como "o führer do povo e do Reich alemão". Ele agora era chefe do Estado e comandante supremo das forças armadas, assim como chefe do governo e do partido único, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou Nazi (o acrônimo do nome em alemão). Hitler tinha poder total na Alemanha, irrestrito por qualquer controle constitucional. Mas a manchete deixava muito mais implícito do que uma grande mudança de poder. Ela sugeria uma identidade entre Hitler e o país que governava, o que significava um elo total entre o povo alemão e Hitler.

O referendo que se seguiu em 19 de agosto de 1934, para legitimar a mudança ocorrida no poder político, visava demonstrar esta identidade. "Hitler para a Alemanha -toda a Alemanha de Hitler" dizia o slogan. Mas como mostrou o resultado, a realidade era muito diferente da propaganda. Segundo os números oficiais, mais de um sexto dos eleitores desafiaram a pressão intensa para obedecer e não votaram no "sim". Em algumas grandes áreas operárias da Alemanha, mais de um terço não votou em Hitler. Mesmo assim, havia um ou dois indícios de que o apelo pessoal de Hitler superava o do próprio regime nazista, assim como o do partido. "Para Adolph Hitler, sim, mas mil vezes não para as demais autoridades" estava escrito em uma cédula em Potsdam. O mesmo sentimento podia ser ouvido em outros lugares.

Sob o verniz da adulação ao führer, alardeada constantemente pela propaganda nos meios de comunicação de massa, há vários indicadores de que o apelo de Hitler estava longe de ser total, mesmo no que a memória freqüentemente chama de "bons anos" de meados da década de 30. Um exemplo de forte crítica contra Hitler pode ser vista em um relatório da Gestapo em Berlim, em março de 1936. A tolerância de Hitler à corrupção e ao estilo de vida luxuoso das autoridades do partido em uma época em que baixos padrões de vida ainda afligiam a maioria dos alemães comuns era, como notou o relatório, altamente criticada. "Por que o führer aceita isso?" era a pergunta nos lábios de muitos, como notou o relatório, e era evidente que "a confiança das pessoas na personalidade do führer está no momento passando por uma crise".


O ditador nazista Adolf Hitler durante cerimônia de abertura das Olimpíadas de Berlim

Esquecidos na euforia
Mas um dia depois da apresentação deste relatório, as tropas alemãs marcharam para a zona desmilitarizada da Renânia. Em uma ação espetacular que expôs plenamente a fragilidade das democracias ocidentais, Hitler pôde celebrar seu maior triunfo em política externa até aquele momento. Os problemas domésticos dos meses anteriores -escassez de alimentos, preços altos, salários baixos e, nas áreas católicas, muito antagonismo com o regime devido à luta entre a Igreja e o Estado- foram temporariamente esquecidos na euforia.

Apesar do resultado absurdo da "eleição" no final do mês, quando -em meio a fraudes, manipulação eleitoral e intensa propaganda pelo conformismo- 98,9%, segundo os números oficiais, votaram "a favor da lista e conseqüentemente pelo führer", a remilitarização da Renânia foi sem dúvida uma medida altamente popular e uma amplamente atribuída à liderança hábil e ousada de Hitler. Muito sugere, de fato, que entre a morte de Hindenburg em agosto de 1934 e a anexação da Áustria e de parte da Tchecoslováquia quatro anos depois, Hitler foi bem-sucedido em conquistar o apoio da grande maioria do povo alemão, algo de importância imensurável para o rumo desastroso que a política alemã tomaria. Fora talvez o período imediato após a impressionante vitória na França, no verão europeu de 1940, a popularidade de Hitler nunca foi maior do que no auge de seus sucessos em política externa em 1938.

Sebastian Haffner calculou de forma plausível que Hitler teve sucesso em 1938 ao conquistar o apoio da "grande maioria daquela maioria que votou contra ele em 1933". De fato, Haffner imaginou que naquela época Hitler uniu quase todo o povo alemão em seu apoio, que mais de 90% dos alemães àquela altura "acreditavam no führer". Na ausência de qualquer pesquisa genuína de opinião, e em condições de intimidação e repressão para aqueles que ousassem contestar a propaganda oficial, quando a única opinião pública que existia era a das agências do regime, tal número pode ser apenas imaginado e provavelmente é alto demais. Ao mesmo tempo, parece difícil negar que o regime tenha conquistado muito apoio desde 1933, e que isto ocorreu em grande parte devido aos percebidos "feitos" pessoais de Hitler. O foco personalizado dos "sucessos" do regime refletia os esforços incessantes da propaganda, que visava conscientemente criar e ampliar a imagem "heróica" de Hitler como um gênio grandioso, a ponto de Joseph Goebbels ter alegado com alguma justiça, em 1941, que a criação do Mito do Führer era seu maior feito de propaganda.

A imagem da propaganda nunca foi melhor resumida do que pelo próprio Hitler, em seu discurso no Reichstag, em 28 de abril de 1939 (que também é citado por Haffner):

'Pelos Meus Próprios Esforços'

"Eu superei o caos na Alemanha, restaurei a ordem, aumentei enormemente a produção em todos os campos da nossa economia nacional (...) Eu tive sucesso em recolocar em produtividade aqueles 7 milhões de desempregados que tanto tocaram nossos corações (...) Eu não apenas uni politicamente a nação alemã, mas também a rearmei militarmente, e tentei liquidar folha por folha aquele Tratado, cujos 448 artigos continham o estupro mais vil ao qual nações e seres humanos já tiverem que se submeter. Eu devolvi ao Reich as províncias que nos foram tomadas em 1919; eu conduzi milhões de alemães profundamente descontentes, que foram tirados de nós, de volta à pátria; eu restaurei a unidade histórica milenar do espaço vital alemão; e tentei conseguir isto sem derramamento de sangue e sem infligir os sofrimentos da guerra ao meu povo ou a qualquer outro. Eu realizei tudo isto, como alguém que há 21 anos ainda era um trabalhador desconhecido e um soldado do meu povo, pelos meus próprios esforços..."

O MITO DO FÜHRER

A alegação de que a mudança na sorte da Alemanha foi conseguida por uma única pessoa era, é claro, absurda. Só que o mais fascinante nesta ladainha do que a maioria dos alemães comuns na época apenas via como sucessos pessoais notáveis do führer, é o fato de representarem "conquistas" nacionais, em vez de refletirem os dogmas centrais do próprio Weltanschauung de Hitler. Não havia nenhuma palavra nesta passagem sobre a obsessão patológica pela "remoção" dos judeus, ou sobre a necessidade da guerra para aquisição de espaço vital. A restauração da ordem, a reconstrução da economia, a remoção do flagelo do desemprego, a demolição das restrições do odiado Tratado de Versalhes e o estabelecimento da unidade nacional, todos tinham grande repercussão popular, indo muito além dos nazistas radicais, tendo apelo de formas diferentes junto a praticamente todos os setores da sociedade. Pesquisas de opinião realizadas muito depois do final da Segunda Guerra Mundial mostravam que muitas pessoas, mesma àquela altura, continuavam associando positivamente estas "realizações" a Hitler.

Em comparação à situação da Alemanha seis anos antes, era difícil para aqueles que escutaram o discurso de Hitler em 1939, mesmo muitos daqueles que antes se opunham aos nazistas, não reconhecer que Hitler tinha realizado algo extraordinário. Poucos tinham disposição ou visão suficiente para analisar o que estava por trás das "realizações", para rejeitar a desumanidade flagrante que serviu de base para a reconstrução da Alemanha, para perceber o solapamento das estruturas governamentais e a liquidação das finanças do Reich que estavam acontecendo, acima de tudo, para englobar os riscos colossais à existência do próprio país envolvidos no curso de ação do regime. E poucos estavam em posição de contradizer a mentira fundamental na afirmação de que Hitler tinha se esforçado constantemente para evitar derramamento de sangue e para poupar seu povo (e outros) dos sofrimentos da guerra. O que para a maioria dos alemães na primavera européia de 1939 eram metas que Hitler parecia ter atingido de forma triunfal, eram para os líderes nazistas apenas a plataforma para a guerra de conquista racial-imperialista que estavam se preparando para travar.

Mas, por mais falsa que fosse a base, as alegações em seu discurso apontam para áreas de grande sucesso na conquista do apoio das massas a Hitler. Mesmo com todas as advertências necessárias contra generalizações sobre aprovação, já que aqueles que desaprovavam eram principalmente forçados a se silenciarem, certamente não é errado falar em um amplo consenso cimentado pela força integradora do Mito de Hitler durante os anos de paz da ditadura.

Foi um consenso fabricado, uma construção de propaganda, tendo a repressão a oponentes políticos, "inimigos raciais" e outros forasteiros à proclamada "comunidade nacional" como o outro lado da moeda. A imagem de "super-homem" de Hitler representava um componente central da fabricação. Antes mesmo da "tomada do poder", ela foi a criação da mais moderna e bem-sucedida estratégia de "marketing" político de sua época, concebida por Goebbels. E assim que o monopólio da propaganda controlada pelo Estado caiu nas mãos nazistas em 1933, não havia mais obstáculo nos meios de comunicação de massa à rápida disseminação do apelo "carismático" de Hitler.

Mas mesmo as técnicas sofisticadas e astutas por trás da criação do Mito do Führer teriam sido ineficazes caso o terreno fértil não tivesse sido preparado muito antes de Hitler se tornar o chanceler do Reich. As expectativas de salvação nacional estavam disseminadas em 1933, não apenas entre os simpatizantes do nazismo, e já tinham sido investidas na pessoa de Hitler. Quando ele tomou o poder, mais de 13 milhões de eleitores tinham engolido pelo menos em parte o culto ao führer, que foi mais plenamente abraçado pela massa imensa (apesar de flutuante) de filiados ao partido e sua miríade de afiliações subordinadas. Portanto, a base organizacional já tinha sido estabelecida para uma disseminação mais ampla do culto ao führer.

Dado o fracasso da democracia de Weimar e as condições de crise em meio às quais o governo de Hitler chegou ao poder, estava claro que se o novo chanceler do Reich conseguisse rapidamente alguns sucessos, ele aumentaria substancialmente sua popularidade. A dimensão da rápida ampliação da adulação a Hitler, a conquista da "maioria da maioria" que não votou nele em março de 1933, foi estabelecida. A velocidade com que o culto a Hitler se espalhou àquela altura precisa ser vista por esta perspectiva, assim como pelo uso magistral das imagens de propaganda.

Havia várias áreas cruciais onde Hitler podia conquistar grande apoio ao agir no que parecia ser um interesse nacional, não político-partidário, e pela conversão de sua imagem de líder do partido para líder nacional. Mesmo seus oponentes reconheciam o aumento de sua popularidade. A organização social-democrata exilada, o SoPaDe (o Partido Social-Democrata da Alemanha), com sede em Praga, reconheceu em abril de 1938 a visão amplamente aceita que era constantemente repetida, "a de que Hitler podia contar com o acordo da maioria das pessoas em dois pontos essenciais: 1) ele criou empregos e 2) ele tornou a Alemanha forte".

Tradução: George El Khouri Andolfato
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