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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

1469- Por que votei Dilma? - professor Virgilio de Mattos

  POR QUE VOTEI DILMA?

                                               Virgílio de Mattos[1]

         Acredito que quem me conhece, minimamente que seja, saiba a resposta, mas escrevo este texto exatamente para aqueles que não me conhecem e nem suspeitam quem eu seja.
         Votei Dilma para ser coerente com minha história pessoal. Para respeitar meus mortos, tanto os pessoais, quanto os coletivos, perseguidos desde o Estado Novo por Doutor Getúlio. Pelos torturados, tanto os de minha família, quanto os das famílias dos outros que eu sequer conheço.
         Votei Dilma porque me organizei contra a ditadura militar aos 14 anos e desde aquela época, vivi um longo tempo com o medo me mordendo os calcanhares e me roendo as esperanças. Sempre avançando, às vezes como um destroço, noutras como um náufrago, mas sobrevivendo sempre.
         Votei Dilma porque ainda existem analfabetos (não os políticos e nem os funcionais) absolutos neste país, como eram os meus avós. E que sempre colocaram muita fé em mim (como fazem sempre os avós em relação aos netos), que eu iria ser um ser que ensina, o que transformei em profissão.
         Votei Dilma porque “amo a uma mulher clara que a mim me ama sem pedir nada, ou quase nada, o que, se não é o mesmo, é igual” , como diz a canção; e estou absolutamente seguro que ela não me permitiria mais na vida dela se, num surto psicótico – do qual quase ninguém pode dizer que está livre – tivesse que obedecer às vozes dizendo: Vota na direita! Vota no playboy!
         Votei Dilma porque tenho compromisso e orgulho de classe e sei que na hora do mais fundo desespero quem vai salvar você é a sua origem de classe.
         Votei Dilma em homenagem aos meus amigos que são professores e professoras, aos alunos e alunas. Tanto os antigos, quanto os presentes, quanto aos que virão.
         Votei Dilma porque jamais cogitei outro voto, mesmo sabendo que a prática desenvolvida nos últimos quatro anos, na maior foi uma prática de centro, o que me irrita muito, mas que tento compreender.
         Votei Dilma pelos seus acertos no atacado, mesmo entendendo que alguns erros no varejo seriam passíveis de serem evitados.
         Votei Dilma na esperança da lei de mídia, da reforma política, no avanço da saúde e educação.
         Votei Dilma porque não tenho medo dessa direita raivosa que pensou que poderia intimidar a nós, os sobreviventes.
         Votei Dilma para mandar um recado curto e grosso a “essa gente”: tua pose e tua posse, vocês cuidem aí direitinho, viu? Vocês só têm a perder, seus sacanas!



[1] - Um desconhecido professor do interior de Minas Gerais. Há décadas acredita que homem pode vir a ser amigo do homem e não patrão do homem.

domingo, 12 de outubro de 2014

1460- Trabalhador vota em trabalhador, rico vota em rico! - artigo do professor Virgilio de Mattos

TRABALHADOR VOTA EM TRABALHADOR, RICO VOTA EM RICO!
                                
Virgílio de Mattos[1]

        POBRE E DESINFORMADO É A PUTA QUE O PARIU! Fiquei pensando em dar este título a este texto e, de certa forma, dar uma resposta ao chefe do playboy candidato à presidência, que na semana passada disse essa platitude: só os pobres e desinformados é que votariam na Presidenta Dilma, 13 e confirma; para azar dos poderosos de plantão, assim como ele e sua cria, o playboy aético. Mas fiquei refletindo se isso não seria alguma coisa agressiva demais e ando tão plácido que chego a pensar que Svletana era uma boa filha...
        Ando plácido mas fazendo o meu trabalho que tem sido conscientizar as pessoas, principalmente àquelas que vivem fora de Minas Gerais o que é ser (des)governado por essa gente: brancos, ricos, sem pudor ou ética, que uma amiga muito engraçada chama de tucanalha.
        São raríssimas as barbaridades cometidas pela política neoliberal tucana em Minas que foram noticiadas fora de Minas. Em Minas a única coisa não censurada nos últimos 12 anos foi o bloco parlamentar “Minas sem censura”. O resto, o resto é resto mesmo, é só dizer que beleza!, que maravilha!, que bunitim! (Mineiro fala engraçadim assim mês. Bunitim, né sô?!)
        Acreditavam que a mentira repetida ad nauseam iria convencer a todos e converter em tolos os eleitores para sempre e caíram do cavalo, ou da égua, pra não ser acusado de ser incorreto politicamente. O imperador foi tocado pra fora com o rabinho entre as pernas e aí, diante da avalanche de votos que o levou pra longe, os jornalões, as tvs e as rádios não tiveram como não dar a notícia: QUEM CONHECE O AÉCIO NÃO VOTA NO AÉCIO!
        Mas eu tenho conversado muito com as pessoas que não têm a clareza do que o modelo neoliberal representa: arrocho salarial, diminuição dos postos de emprego, restrição ao crédito e aumento dos juros e “flexibilização” (que pra eles é sinônimo de extinção) dos direitos todos, a começar pelos trabalhistas como férias de 30 dias, 13º salário, aviso prévio, etc., conquistados duramente pelas lutas operárias no início dos anos 1940!
        É isso mesmo, leitor e leitora pacientes, votar no modelo neoliberal fará com que você embarque numa máquina do tempo não para o tempo da recessão de 1982 (quem a viveu sabe bem do que eu estou falando. Eu mesmo fiquei nove meses desempregado.), mas para antes de 1940, já pensou que beleza?
        Ricos votam em ricos. Perdem um pouquinho aqui, dependendo das circunstâncias, porque sabem que irão ganhar um montão acolá. Ricos gostam de ricos, consomem como ricos e têm pavor de pobres. Tá bem, eu consigo entender, como diz a sábia rebolante do funk: “cada um no seu quadrado”. Rico vive de explorar pobre mesmo.
        Mas uma coisa que tem me incomodado muito e tenho tentado ser paciente nas explicações (quem me conhece sabe que ando acelerado pra ter paciência, mas que paciência nunca foi o meu forte) é por que pobre tem declarado voto em rico?
        Duvido muito que as teorias de Milton Friedman tenham sido absorvidas pelo Jorginho jardineiro, pelo “Seo” Zé porteiro, pela Jamile do barraco de madeirite (a solidariedade entre os trabalhadores vai tirar você, seu marido e os gêmeos do madeirite já, já, Jamile!) ou pelo Tarzã faz-tudo, meus amigos. Que merda é essa de liberdade econômica com mínima participação do Estado? Economia de mercado é comprar menos no sacolão? Reduzir impostos só pros ricos por que, se eles já têm tanto? Ah, vai ver é pela sua network, seus amigos bacanas, como Augusto Pinochet, Richard Nixon e Ronald Reagan, só gente boa...
        Evidentemente que esses meus amigos nunca ouviram falar em mais valia, exceto, “numa comparação”: mais valia mandar esse playboy à merda e deixar a gente em paz pra trabalhar e seguir pelejando, fico imaginando essa fala na fala do Tarzã, por exemplo, “numa comparação”.
        Eu não preciso explicar Marx pra eles, nem que a mão invisível do mercado só serve se for pra passar na bunda dos poderosos. O mercado sempre regulou a miséria e a fome, da imensa maioria, para que uns poucos possam rir da cara da gente.
        O sorriso desse playboy babaca deve ser da cara dos pobres que votam nele.
        Vocês acreditam que tem pobre votando nele? Eu sempre pensei que rico votasse em rico e que trabalhador votasse sempre em trabalhador.
        Mas como dizia o seu Joel, sábio pai de minha amiga Delze: bobo e estrada de chão num acaba nesse mundão.
        Vote Dilma, vote 13! Azar dos poderosos!



[1] - Pode ser professor, mas não é burro: se trabalha há mais de 42 anos, não pode votar em um playboy que nunca trabalhou.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

1457- A dentista do Ailton voltou dos Estados Unidos - Coluna do professor Virgilio de Mattos

A DENTISTA DO AILTON VOLTOU DOS ESTADOS UNIDOS
                            

Virgílio de Mattos[1]


Eu tenho um medo danado da dentista do Aílton. Não que não tenha medo de outros profissionais da odontologia, tenho sim, mas a dentista do Ailton me infunde um terror especial que me faz ficar preocupado quando soube que ela tinha voltado dos Estados Unidos, onde foi, seguramente, derreter o que toma de seus clientes, do Aílton inclusive, nas lojas e nas liquidações da ilha de Manhatan, que desde Carlos Drumond de Andrade os poetas tentam explodir sem sucesso.
A dentista do Aílton trouxe um monte de roupas espalhafatosas, mas in, cosméticos made in USA e até pasta de dente que ela jura que todo mundo usa. Cansada mesmo ficava de não conseguir se fazer entender em Nova Iorque, que tem pouco tempo ela descobriu ser uma ilha: “Eu tenho um inglês tão bom quanto o da Carmen, do nono andar, mas assim como ela ninguém me entende também. Essa gentinha que atende a gente tinha que se profissionalizar para atender a gente diferenciada”. Ela adora a expressão “diferenciada” que serve pra tudo, desde comida até gente.
Arrebentou o cartão de crédito e terá uma grande e desagradável surpresa quando for pagá-lo, porque o seu candidato, agora no segundo turno, que ela jura ser um Juscelino “repaginado” (o que diabos ela queira dizer com isso, mas é uma expressão que ela também usa pra tudo), já fez o dólar estadunidense subir mais do que a pressão de pobre balançando de raiva nos ônibus superlotados depois do serviço. E ela disse que “depois pensa nisso”. Lógico que vão controlar a inflação e melhorar a economia sem esses comunistas do PT (ela jura que o PT é um partido de comunistas).
A dentista do Aílton tem o seu lado pândego também, quando anda em ambientes fechados, o que se pode notar já a distância pelo “toc-toc-toc” nervoso do salto alto trotando e pelo tilintar das pulseiras “não uso bijou não, cê tá doido? É tudo ouro, ouro, ouro”; ela jura que “essa gentinha”, isto é, o país todo que não pensa e não consome como ela, deveria ‘ir para Coréia do Norte ou pra China, que é lugar de comunista”.
Embora ache muito in azul com amarelo, ela tende a não participar das carreatas pagas pelo seu candidato, “porque mistura muito, tem de tudo, até gente que a gente vê que não é do nosso nível”. E ela, afinal, que sempre estudou nos melhores colégios particulares e só fez “odonto na Federal, pagava uma mixaria, o desagradável era não ter garagem coberta, o carro ficava todo empoeirado” porque “tinha muita gente diferenciada, de nível, mas é lógico, né, uma ou outra gentinha”.
A dentista do Aílton só ficou apavorada quando percebeu que Jéssica Neydiane, sua empregada, “meio lerda, coitada, mas uma leoa pra trabalhar”, havia comprado um celular, desses de passar o dedo, melhor do que o dela. –“É chinês ou paraguaio?” Perguntou com uma ponta de inveja que até o retardado do marido sabia identificar. - Uai, isso eu não sei dizer, não senhora, o moço da loja me garantiu que era o melhor que tinha e como eu já paguei a prestação da casa, meus filhos estão todos estudando nas escolas técnicas federais e o carro, a máquina de lavar e a televisão maior do que essa que tem aqui na sala da senhora já tá tudo pago, eu pensei: vou comprar um telefone desses de ficar passando o dedo, já fui até pra Cancun de avião e não gosto mesmo de viajar...”
“Ah, que ódio. Pobre andando de avião...”  Rosnou pra si mesma.
A dentista do Aílton jura que, se houver um novo governo do PT ela vai morar em Miami, aliás, como o advogado dela já ameaçou fazer.
Vote Dilma! Vote 13! Faça com que a dentista do Aílton, o advogado dela e o pessoal “diferenciado” amigo deles tenham uma boa viagem só de ida pra Miami.
Fora com essa canalha, o Brasil pra quem trabalha!

(PS.: Todos os personagens são reais. Um abraço pro Aílton e um pedido à dentista dele: não volte!)



[1] - Professor universitário. Trabalhador desde os 14 anos de idade. Tem orgulho de sua origem de classe.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

1340- Contra tudo e contra todos - coluna do professor Virgílio Mattos

CONTRA TUDO E CONTRA TODOS
           Virgílio de Mattos

Não é fácil remar contra a maré e a correnteza se o barco ainda não está pago, você está sozinho, sente frio e sede, fome e medo do escuro, melhor deixar-se levar pelo meio do rio ou próximo à costa, deixar o dia clarear e com o sol causticante e implicante e as pessoas fazendo fila na praia ou na margem pra comprar o seu peixe, enfim, você poder relaxar um pouco.
         Algumas metáforas fedem a peixe podre e não gostaria de utilizá-las num texto, leitor paciente. Na verdade este é um texto que não gostaria de escrever, porque sempre entendi que povo na rua é sempre um bom sinal e, pouco importando a rua, sempre faz sentido.
         Por que então, agora, estar um pouco perdido com tanta massa (inútil?) na rua, tanta gente boa e bonita, tanto apoio da mídia e das classes mé(r)dias? Talvez seja exatamente por isso que não me sinta bem. Quem é esse povo que andou nas ruas da minha cidade e de outras cidades onde vivi e fui feliz e triste, senti fome e cansaço, alegria e raiva?
A expectativa aumenta.
Minha mãe dizia pra não se misturar com porcos porque a gente iria comer farelos. Na verdade minha mãe tinha vários ditados irritantes em sua sabedoria de educação formal quase nula. Não marchou com deus pela democracia em 1964, embora tivesse um pouco de receio dos “padres comunistas da Igreja Nossa Senhora do Carmo”. Tinha medo de comunismo e comunistas, seu cunhado destroçado na tortura por Felinto Müller talvez explicasse isso. Talvez o marido fascista que o tempo vai tornando mais “progressista”... Quem se preocupa com explicações?
Volto no tempo ao tempo de manifestações de rua em São Bernardo, São Paulo, Belo Horizonte, cidades em que vivi e fui feliz e triste, senti fome e cansaço, alegria e raiva. Estávamos em 1979 e eu tinha duas certezas: a ditadura cairia ainda no primeiro semestre e a Revolução Socialista não passaria do segundo. Sempre tudo foi uma questão de tempo?
Reflito sobre algumas imbecilidades que vi enquanto penso num cartaz: EXIJO MEU INVERNO!!! Ou então em outro mais apropriado ainda: CONTRA TUDO E CONTRA TODOS!
Saúde, educação, quem pode ser contra isso? Conhece alguém a favor da corrupção, da pedofilia, do câncer de fígado?
Fizemos, num encontro de final de semana, sem pauta prévia além de matarmos saudades recíprocas e, das pautas picadas, estas reivindicações isoladas:
Carlos “Mente Perigosa” Magalhães: CONTRA O MAL. Porque o mal representa tudo que é ruim.
Laurinha Lambert: PELO FIM DO GADO CONFINADO! Precisamos de cogumelos pra esse povo deixar de ser careta.
Mônica Ribeiro: PELO FIM DA MATEMÁTICA NO UNIVERSO! Não sei fazer conta de cabeça.
Maria Caxuxa: ENTÃO OCÊ ESPERA...ESQUECI. É porque não tem nem mais revistinha por aí.
E eu: QUERO FICAR DE SANGUE ATÉ O PESCOÇO! Justificativa? Não quero acordo.
Pra não dizer que não falo sério fiz também meu programa de cinco pontos, já que todo mundo apresenta um programa de cinco pontos. Como preliminar exijo a extinção das prisões e dos manicômios. Como acordo aceito a revogação das leis antidrogas, o que reduziria a população carcerária em mais de 50%.
Pra não dizer que não proponho acordo, eis meu programa de cinco pontos, como uma estrela:
1.   Lei de mídia e revogação de TODAS AS CONCESSÕES de mídia eletrônica;
2.   Imposto sobre grandes fortunas e herança;
3.   Fim do latifúndio e reforma agrária e urbana amplas;
4.   Estatização dos transportes (não são públicos?) e dos bancos;
5.   Taxação de TODAS a igrejas com Imposto de Renda Pessoa Jurídica, ISSQN e ICM.
Obviamente que não estão em ordem de importância, é apenas uma proposta de acordo.



quinta-feira, 11 de abril de 2013

1314- Por uma política cidadã sobre drogas - Coluna do professor Virgílio Mattos

Por uma Política Cidadã sobre Drogas
A Frente Mineira sobre Drogas e Direitos Humanos (FMDDH) e a Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA) divulgam a Carta produzida durante o seminário “Drogas e cidades: pensamentos para uma prática cidadã”, que aconteceu entre os dias 14 a 16 de março, no Centro Universitário Newton Paiva, em Belo Horizonte.


 CARTA DE BELO HORIZONTE

POR UMA POLÍTICA CIDADÃ SOBRE DROGAS

 
Os participantes do SEMINÁRIO DROGAS E CIDADES: PENSAMENTOS PARA UMA PRÁTICA CIDADÔ, realizado em Belo Horizonte, nos dias 14 a 16 de março de 2013 declaram:


- como cidadãos, responsáveis e atuantes nas políticas públicas sobre drogas, repudiamos as ações higienistas, violentas e repressivas de tratamento aos usuários de drogas, em especial de crack, levadas a cabo e divulgadas como solução do problema nas grandes cidades, destacadamente no Rio de Janeiro e São Paulo;

- que as chamadas cracolândias antes de serem a “pátria dos craqueiros” é um território de esquecidos e abandonados pela cidade e poder público, devendo as intervenções públicas fortalecerem os direitos de cidadania dos moradores destes territórios e dos usuários que ali se concentram para fazer uso de drogas, e não recolhê-los indiscriminadamente. Ao contrário, deve-se investir no laço e vínculo com os mesmos, trazendo-os para a rede de tratamento e assistência;

- não aceitamos nem tampouco defendemos a realização das chamadas internações compulsórias e involuntárias como recurso primeiro e em massa dos usuários. Tais ações não cuidam, apontam o fracasso clínico e social de busca do consentimento ao cuidado e são, na prática, um ato de seqüestro de direitos;

na mesma medida repudiamos a implantação das propostas políticas do Governo do Estado de Minas Gerais, em particular, o Cartão Aliança pela Vida e o Território Aliança. Todas são estratégias centradas na lógica da exclusão e da segregação e favorecem e defendem os interesses privados em detrimento do bem público. Uma relação histórica, questionável por parte do Governo do Estado que reduz a saúde a um bem de mercado e não de cidadania, e o cuidado a um ato de vigilância, controle e repressão;

- repudiamos aquelas comunidades terapêuticas que violam os direitos humanos e propomos que a possível inserção desse setor na rede poderá ser feita como serviço de atenção em regime residencial ou projetos de inclusão produtiva, respeitando as exigências da Portaria Ministerial nº 131, de 26 de janeiro de 2012;

- repudiamos as intervenções do Judiciário, Ministério e Defensorias Públicos que, ao contrário, da proteção aos direitos do cidadão, tem repercutido o alarme e desencadeado ações que fragilizam os usuários, os inscrevem como classe perigosa e perpetuam o preconceito e o estigma em relação aos mesmos;

- repudiamos a opção por um modelo de saúde privatizado, com transferência de responsabilidade estatal na gestão dos serviços, que além de não permitir a estruturação de uma política da estado sobre drogas, também precariza as relações de trabalho, impondo a redução de direitos a usuários e trabalhadores;

lamentamos a opção e posição do governo federal em acolher e dialogar apenas com representantes do discurso repressivo e moral, ignorando as posições e propostas dos movimentos sociais comprometidos com a construção de políticas públicas e com a defesa dos direitos sociais e humanos e da IV Conferência Nacional de Saúde Mental e XIV Conferência Nacional de Saúde. Tal escolha conduziu à formatação de uma política que incluiu no SUS espaços de reclusão além de estimular a privatização da assistência em saúde;

- que a chamada “guerra às drogas” além de ineficaz é danosa, produz mais mortes do que o seu uso, intensifica a violência e desperdiça recursos públicos, além de sustentar a ilusória crença na possibilidade de um mundo sem drogas;

- defendemos para Belo Horizonte, em razão e coerência com a história da Luta Antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica aqui implantada, assim como para todo município brasileiro, uma política de atenção aos usuários de álcool e outras drogas ousada, corajosa e inovadora e não a repetição de velhas fórmulas e respostas apressadas, mágicas, a uma questão tão delicada e complexa e intrinsecamente associada aos valores contemporâneos, cujas marcas podemos ler nos novos modos de relação dos sujeitos com as drogas;

- defendemos, no caso específico para esta cidade, a criação de mais CERSAM-ad III conforme decisão da III Conferência Municipal de Saúde Mental e afirmamos ser inaceitável a existência de apenas uma unidade deste tipo. Não há como fazer frente ao alarme e busca de soluções mágicas, sem apresentar respostas públicas de qualidade e potentes;

- defendemos, para as crianças e adolescentes, em especial as que se encontram em situação de rua, a implantação de políticas que as conduzam e insiram na cidadania e rompam com a exclusão e o encarceramento precoce a que têm sido submetidas;

- defendemos a implantação de leitos em hospital geral para cuidado às urgências e necessidades clínicas dos usuários, superando a resposta inadequada dada pelos hospitais psiquiátricos e comunidades terapêuticas, ambos, destituídos de condições e estrutura para realização deste cuidado;

- defendemos Consultórios de Rua públicos, invenção recente, audaciosa e criativa, que levou a saúde mental ao encontro de uma realidade até então desconhecida pelas políticas públicas, fazendo chegar às redes histórias de vida nas quais a droga é um dos elementos, e o elemento, da desfiliação e fragilidade, cuja implantação exigiu coragem e decisão de fazê-lo e orientou-se pelos pressupostos da redução de danos e da reforma psiquiátrica para desvelar aquilo que a exclusão encobria: a vida presente nas cenas de uso. Por isto, repudiamos, mais uma vez, o arremedo de consultório proposto pelo Governo de Minas Gerais, através do Território Aliança, cuja capacidade de atuar em coerência com tais princípios está comprometida de saída, na medida em que serão executados por instituições que operam com a estratégia da abstinência, de captação de usuários para seu serviço e a lógica do lucro;

- defendemos que as políticas públicas, de forma ampla, e os serviços de saúde mental e seus trabalhadores, em particular, adotem e operem com os pressupostos da redução de danos, fomentando a construção de outra cultura clínica, mas, sobretudo, cuidando solidariamente dos usuários;

- defendemos ainda, que a resposta urgente e necessária do poder público não se restrinja à saúde, mas incorpore todas as áreas públicas: trabalho, habitação, educação, cultura, arte, esporte, justiça, segurança pública e assistência social, sendo, portanto e efetivamente, intersetorial para dar acesso à cidadania e fazer valer o direito à vida;

- defendemos a criação de espaços de interlocução entre a saúde e o judiciário, favorecendo, além da aproximação entre as instituições, a defesa e o fortalecimento dos direitos de cidadania dos que usam e abusam de drogas;

- repudiamos o PL 7663/2010 e seu substitutivo em função do retrocesso a que os mesmos podem conduzir a política de drogas e das ameaças aos direitos sociais que tais propostas podem acarretar;

- repudiamos a escolha e a permanência do deputado federal Marcos Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara e, assim como os milhares de manifestações, afirmamos que o mesmo não nos representa;

- denunciamos e repudiamos as ofensas e acusações feitas pelo deputado federal Givaldo Carimbão (PSB/AL) ao Conselho Federal de Psicologia e, como cidadãos, exigimos que o parlamentar seja responsabilizado por tais atos.

Uma cidade somente será o oposto do deserto que a limita, quando criar em si, em seu solo as condições para incluir a todos, para fazer valer a vida e não o lucro ou o capital, o homem e seus sonhos e capacidades, tristezas e realizações, tecendo, dia a dia, ponto a ponto, os invisíveis fios que unem uns aos outros na construção da história. Desejamos a Belo Horizonte a possibilidade de cumprir seu desígnio: ser um horizonte aberto, convidativo para todos e em especial para seus cidadãos. Uma referência no atlas ancorado no respeito à dignidade humana. 

Belo Horizonte, 16 de Março de 2013

domingo, 7 de abril de 2013

1312- Com as mãos (e os pés) sujos de lama - Coluna do Prof. Virgilio Mattos


   COM AS MÃOS (E OS PÉS) SUJOS DE LAMA

 

                           Virgílio de Mattos

 

Você, leitor paciente, há de concordar comigo que raros espetáculos (que duram em média sete horas e meia) merecem fazer você sair de casa nesse diluviano outono tropical em que estamos afogados, ainda que o calor continue sufocante e a seca seja uma constante no nordeste do país em particular e nos vários bolsões do semiárido em geral. Conheço várias pessoas que duvidariam (ainda mais) da minha higidez mental se os convidasse para uma defesa de doutorado, na Escola de Arquitetura da UFMG sob essas condições de temperatura e pressão.

Vou contar-lhes porque fui. Porque tinha necessariamente de estar presente naquele espetáculo que foi a defesa de Água em meio urbano, favelas nas cabeceiras, de Margarete Leta de Araújo Silva, bem (des)orientada pela belíssima e competente Silke Kapp?

O saudoso Prof. Ariosvaldo de Campos Pires costumava dizer que toda defesa de tese é “festa da inteligência”. Convenhamos que o que assistimos hoje, mundo afora, desmente um pouco o querido professor que cometeu talvez sua única indelicadeza na vida que foi ter deixado de viver.

Reminiscências saudosas a parte, como estar presente na gestação e uma tese de doutorado de arquitetura alguém que não sabe sequer fazer conta de dividir por dois números e nunca conseguiu fazer um desenho que fosse além da casa-com-árvore-cerca-sol-e-nuvem ? Marx nos unia, talvez um pouco deslocado e perplexo na explicação das favelas – para emprestar a ácida crítica de outra figura amiga presente que insiste em dizer que Marx era um autor do século XIX -, e também a certeza de que a construção de uma tese é sempre permeada das mesmas dificuldades, não importando a área de conhecimento, a época e os atores envolvidos.

Sofri feito um demônio em assembleia de neopentecostais no fazimento da minha. Hipócritas ou distraídos, aqueles protegidos da canção, dizem não ter sofrido. Antes a perplexidade, durante o desespero e depois o vazio. Um abismo imenso quando se “dá por terminado” um trabalho que, sabemos todos que já passamos por isso, não tem fim.

O que diferencia a tese da Leta das demais que estamos (mal) acostumados a ver nas diversas áreas do conhecimento acadêmico? Exatamente o fato de ter ela as mãos (e os pés) sujos de lama. A lama espessa da desconstrução dos preconceitos, na metáfora e a lama escorregadia e pegajosa do real no alto das favelas que pululam em Belo Horizonte.

Leta reconta a história da exploração dos trabalhadores da cidade na tentativa (sempre falha) da contenção das águas em meio urbano. Apresenta o ouro em pó de sua cuidadosíssima mapoteca, em 13 pranchas que tratam das principais favelas de Belo Horizonte, desde 1957, das microbacias e favelas com imagens comparativas (em três tempos), da Favela da Serra, rebatizada pela polícia de “aglomerado”. Sempre tive antipatia desse novo batismo dado às favelas porque aglomerado me lembra (depois se diz que burro não faz insight) madeira de baixa qualidade e não habitação de gente pobre, às vezes até feita de “aglomerados”, mas isso é outra história que aqui não cabe.

Cabe dizer do impactante que é o trabalho de Leta quando, já no primeiro capítulo (Dominação da Natureza), alerta que na nossa cidade “(...) parcela significativa da população vive em favelas e loteamentos precários, centrais ou periféricos, baixios de viadutos, edificações inacabadas ou abandonadas. Áreas que, de algum modo, não foram encampados pelo mercado imobiliário formal se oferecem a estas populações, cujas ações individuais ou coletivas de suporte à vida cotidiana tendem a potencializar a fragilidade ambiental ou precariedade urbana que as desqualificaram para o mercado urbano de terras” (p. 17).

É assim: o subproletariado, que ela chama provocativamente de ralé, para seguir um weberiano que vai de moda e ela adora, que não tem mais sequer o seu lugar histórico de exército de mão de obra de reserva, tem como único lócus de moradia possível um não-lugar que sequer é qualificado para a compra e venda em um sistema em que tudo é transformado em mercadoria, até mesmo – e principalmente – a força de trabalho dos sem nada.

Leta demole impiedosa e elegantemente todos os destruidores “projetos” – na verdade são projetos sem projeto – do poder público municipal, sustenta e grita a plenos pulmões que não há neutralidade na política de exploração em massa e manda um recado direto aos responsáveis, aqueles homens e mulheres de “bens” que acreditam “não ter nada com isso”, Leta lhes diz, em um português legível mesmo fora da Academia pra esse povo abrir o olho, como se buscasse um velho recado esquecido: TUA POSE E TUA POSSE, CUIDA AÍ DIREITINHO, VIU, PORQUE VOCÊ SÓ TEM A PERDER, SACANA!

É um trabalho que incomoda os sacanas de todos os níveis, dá gosto de ver um trabalho assim, feito com as mãos e os pés sujos de lama.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

1300- In gold they trust - Coluna do professor Virgílio Mattos


                        “IN GOLD THEY TRUST”                                      
                              Virgílio de Mattos
        Quase ia deixando passar batido, como dizem os presos, a visita da “blogueira”, agente indisfarçada da Central Intelligence Agency, a provocadora Yoani Sánchez. Mas não consigo.
        É simples entender os porquês. Essa mulher vem recomendada pela Rede Globo, Revista Veja, jornal O Estado de São Paulo e outros da mesma laia e chafurdados na mesma lama, obviamente, assim como aqueles que a glorificam como “trabalhadora por conta própria”, “técnica de reparos em computadores” e etc., que são os mesmos que fazem o serviço sujo da defesa do capital contra os trabalhadores. Obviamente, de novo, pagos por alguém.
        In gold they trust, ou seja: no ouro eles confiam. Dizem que confiam em deus, como a inscrição nas notas de dólares estadunidenses, mas particularmente tenho minhas dúvidas, embora conheça muitíssimos que confiam no ouro e em deus, ou que ganham a vida vendendo deus, mas isso deve ficar restrito à crítica ferina que faz o Frei Gilvander, que é a autoridade maior que conheço em deus e exegese bíblica.
        Voltemos à lama. Essa senhora, vendida como mártir da democracia, pelos seus patrões midiáticos, quer fazer o povo brasileiro de trouxa. Parece que tem conseguido.
        Como é que uma pessoa, em qualquer lugar do planeta, trabalhando como autônoma “datilógrafa” e “técnica em reparos de computadores”, já que “não a deixam exercer o cargo de filóloga”, cuja formação foi custeada pelos “bárbaros monstros comunistas” que ela tanto ataca, consegue dinheiro para uma viagem Cuba-Brasil-Cuba (só aí estamos falando de alguma coisa próxima a USD$2.000,00, ou um pouco mais de R$4.000,00)? Financiada por alguém, de novo é óbvio. Mas esse financiamento é de alguma instituição de ensino superior? Foi feito pelo Sindicato dos Jornalistas? Não, parece que o dinheiro vem de outro lugar... É preciso seguir o dinheiro.
         Daqui, dizem seus defensores da grande mídia (os “liberais” donos dos maiores – e mais conservadores! – jornais, revistas e TV’s) ela irá pra España, Suécia, Suíça, Itália, Peru, EUA - Miami of course, dando início a um périplo por doze países no total em 90 dias. Se não gastar um kilo (a menor moeda cubana que não tem representação em Real) com comida, hospedagem e transporte só de passagens quanto gastaria? Quem financia essa farra?
        Mas quem é essa “respeitável senhora”, “lutadora pela liberdade de imprensa e pelos direitos humanos”?
        Sra. Sánchez já morou fora de Cuba, que tanto ataca, quando emigrou para a Suíça em 2002, casou com um alemão e por ali ficou por dois anos, viajando bastante, notadamente para Alemanha (nenhum problema, foi visitar os familiares do marido talvez) e para a España, onde encontrou-se com seu mentor, o terrorista Carlos Alberto Montener, fugitivo da justiça por sua participação no atentado contra a loja “El Encanto”, além de outros. É ligado à CIA desde a década de 1960 e principal recebedor, para dizermos de modo elegante, dos dólares estadunidenses para a criação de um projeto de “atração de dissidentes”.
        O patético é esta recriação de guerra fria, só que pelos antigos patrocinadores de sempre. O cruel é que sob a capa de “liberdade de imprensa” em Honduras (cujo golpe a bloguera apoiou, obviamente por determinação de seus patrões estadunidenses, felicitando ao ditador Micheletti pelo golpe de estado), ainda se diga que inexistem liberdades em Cuba.
        O furo de reportagem deste blog é que a verdadeira nacionalidade de Yone Sánchez é outra: ela é paraguaya!
        Revejam o “milagre” da multiplicação dos blogs, acessem e descubram quem é que paga a conta.
        Na dúvida, sigam o dinheiro, é o que sempre sugerem os pesquisadores. Nesse caso eu acredito que nem precise.
        Ia dizendo: pra que importar barangas, se já temos tantas, mas poderia soar constrangedor. Essa senhora poderia nos favorecer com sua ausência, aqui não é bem-vinda, embora o P.I.G., partido da imprensa golpista, quer que você pense o contrário. Xô satanás, xô baranga!

Não deixe de dar uma olhada:
http://www.jb.com.br/informe-jb/noticias/2012/03/05/investigacao-descobre-fraude-da-blogueira-cubana-yoani-sanchez/

domingo, 17 de fevereiro de 2013

1299- Teste o seu texto - Coluna do professor Virgílio Mattos


                       TESTE O SEU TEXTO
                          Virgílio de Mattos
       
         Fico sem ter vontade de escrever a maior parte do tempo. Desperdício de tinta e papel, avisam antigos clichês (quem tem menos de 50 anos não sabe o que é a impressão utilizando clichê, ou talvez nunca tenha visto um “ao vivo e em cores”), mesmo quando se tem o que dizer? Penso eu.
        Pra escrever você tem que ter vontade. Conhecimento é desnecessário (a década no Tribunal vendo petições e as décadas de magistério não me deixam enganar). Mesmo porque ficou brega não ter erro de ortografia. O negócio é ser compreensível para as massas (o que é fenomenal!), mesmo que você tenha que esquecer “us plural”. Escrever “us pessoal” e fazer abreviaturas uga-uga.
        Mídia me dá nojo e “desensina” a escrever, mas sinto saudades de velhos suplementos dominicais onde, às vezes, mandava um ou outro poema e, suprema alegria: pagavam-me por isso. As colocações pronominais também andam de uma precariedade de fazer corar o sistema de saúde mental no interior profundo.
        Um orgulho súbito e intenso: meus avós paternos não sabiam ler e escrever e de tanto ver o analfabetismo real deles no analfabetismo funcional de tantos, sobretudo “escritores” ou os que “ganham a vida escrevendo”, fico tranquilo com o mantra que repito aos alunos e alunas (que hoje se você não ressaltar os artigos, fazer a diferenciação masculino e feminino, você pode vir a ser chamado de preconceituoso) : “só não erra o português quem não escreve em português”. Qualquer um que se aventure a escrever vai errar. Se publicar, pode estar certo, mesmo com antipáticas revisoras (que só viram um orgasmo, por descrição, na Seleções do Readers Digest) “corrigindo” o que não entendem como se errado estivesse (é uma forma de acharem sentido nas coisas), assim mesmo, quando você publicar irá encontrar erros incríveis, até mesmo na lombada de seus próprios livros (o que é extremamente constrangedor).
        O que gostaria, leitor e leitora pacientes, que seguem o meu texto mesmo que tenha mais de uma lauda (alguns sequer sabem o que significa lauda, mesmo que sejam meus leitores, não importa), é que vocês não perdessem o rumo e o prumo e, sobretudo, insistissem em exercitar o próprio texto e testassem a capacidade de exercitar a comunicação. Nada de “ação comunicativa” (quase ia escrevendo uma bobagem: “ação comunicativa de cu é rola”, ainda bem que refreei-me a tempo) ou de labirintos, sejam eles com Jürgen ou com Penólope.
        Não sejam bestas, por favor, imploro. Testem o texto entre amigos.
        Zaffaroni, no O inimigo no Direito Penal, RJ: REVAN, 2007, p. 31, cita André Glucksmann (Los maestros  pensadores, Barcelona, 1978, p.43):
        ¿Qué necesitan hoy los que suben al poder aparte uma buena tropa, aguardiente y salchichón? Necesitan el texto.
        Tão vendo como é importante testar o texto? Não bebo aguardente (desde o longínquo 1982) e não como salsichão (desde 1994), testo o texto desde 1974, quando escrevi SPARSUS, um livro muito engraçado, não fosse pateticamente triste e ruim. Mais triste do que ruim.
        Não quero forçar nem a nossa amizade e nem, muito menos, a paciência de vocês. É para testarem o próprio texto. Custa nada. Não faz mal (a menos que seu texto seja um texto de bilhete suicida, aí é phoodda). Exercitar o próprio texto é como respirar sem aparelhos: enquanto você consegue tá bom, regozijai meu chapa! 
        Dizia o otimista, em seu comunicado à praça, que as coisas só não estavam melhores pra não atiçar a raiva dos inimigos e cometeu ato falho extremamente óbvio e compreensivo. Pegou?

domingo, 6 de janeiro de 2013

1288- Aquellos ojos azules - para Caridad - Coluna do professor Virgílio de Mattos


                       AQUELLOS OJOS AZULES

                            Virgílio de Mattos

        Entre o engasgo e o alívio uma imagem ficará pra sempre nas minhas fatigadas retinas: aqueles olhos azuis, muito azuis e, agora exagerando no papel de bobo, fiquei fazendo paralelos com o bolerão: aquellos ojos verdes.
        A notícia já esperada não deixa de ser impactante: Caridad está morta e isso traz consigo toda a dimensão do inexorável. A família ainda tem a delicadeza de me avisar apenas após o enterro (revertere ad locum tuum), evitando alguma maluquice de última hora e afastando a dificuldade que é a viagem daqui até lá.
        Fico pensando em Loyola, o presidente da Associação Internacional dos Machistas-Leninistas – que me nomeou secretário-geral e passamos os últimos dez anos sacaneando um ao outro por isso – e no buraco que será a vida dele, agora sem ela, depois de 53 anos de vida em comum.
        Mas preciso contar como foi que fui fazer parte dessa família, o meu familión habanero que me enche sempre de orgulho e a única vez que me fez triste é exatamente agora, quando ela vai embora. Já não mais a falta de ar, já não mais a inapetência completa, já não mais as dores excruciantes. Agora nem mais a difícil consolidação dos dados a campo das várias pesquisas importam. Agora é descanso, remanso, tranquilidade enfim.
        Volto a 1999 e a professora Beatriz Vargas vem voltando de Cuba, mais precisamente de um congresso a que não quis ir porque acreditava que não poderia estar longe daqui por mais de uma semana e revendo isso penso: como é que a gente pode ser tão estúpido às vezes...
        Bia conta o encontro com Caridad e a excelente impressão que havia causado. Começa a articular sua vinda até Belo Horizonte; já que Nilo Batista a traria ao Rio em breve; com um professor da direita, já morto – por isso não cito seu nome – e com uma outra professora da mesma IFES em que trabalhávamos todos, ela também de direita embora tivesse voltado “encantada com Cuba”, como alardeava pelos corredores, ruas e avenidas.
        Enfim quando chegou aqui o tempo esquentou já na sua primeira intervenção, na vetusta Sala da Congregação, quando Caridad, respondendo de bate-pronto a uma provocação do professor de direita que tinha viabilizado sua vinda e o evento, disse a todos que além de cubana era, com muito orgulho, membro e militante do Partido Comunista de Cuba. Caímos na gargalhada – vários – e aplaudimos – todos – àquela resposta tão linda e tão límpida que calou o provocador e continuamos a série de palestras que ela tinha vindo fazer.
        Foi a convite dela que tanto eu quanto vários outros professores brasileiros lecionamos na escola de capacitação de quadros do Ministério da Justiça a partir de 2000. E que também os amigos dela na España, no México, na Venezuela, em Angola, etc. se tornaram nossos amigos. Acredito que tenha sido nessa época que me tornei, a princípio sem me dar conta, um membro do familión.
        Lembro-me, impactante, a foto do familión comigo abraçado a ela e a Loyola, Lídice e Carlito lado a lado, com a presença súbita e inquietante do cachorro Pirata, aparecendo ao fundo o Lada branco remendado e redivivo; San Miguel del Padrón me parece agora um outro mundo, muito mais distante e inacessível do que era quando Camilo Cienfuegos mandou que Loyola escolhesse uma casa pra ele viver, logo após o triunfo da Revolução, e a casa escolhida foi aquela, muito simples e pequena, porque havia um abacateiro no fundo.
        Gente de escolhas simples e nem por isso menos difíceis, fico pensando na garota pobre que se esforçava pra estudar pedagogia quando os gringos ainda mandavam na sua terra e que ajudou de modo importante, o triunfo da Revolução nas cidades e que depois do triunfo partiu para erradicar o analfabetismo, a miséria de não se saber ler e seguiu ensinando aos que viriam a ensinar a se livrar das próprias misérias, tanto no curso de psicologia, quanto no de direito e nas sólidas pesquisas do Ministério da Justiça de Cuba.
        Pulo a parte do tiro de metralhadora na coxa esquerda que a fez mancar discretamente pelo resto da vida e passo pela graduação em psicologia e o doutorado em Moscou. A família, principalmente os “meninos”, sempre curtiram com ela pelo forte sotaque caribenho com o qual falava o russo. Земля является синий! Foi ela quem escreveu e me ensinou como pronunciar a frase símbolo do cosmonauta que emprestou seu nome a meu neto e que quando eu tentava repetir todos riam.
        A vida é mesmo um instantâneo em preto e branco, minha querida, embora tenha razão Gagarin e a terra tenha a cor dos seus olhos.
        Recebi alguns correios em resposta ao triste anúncio que fiz aos amigos mais próximos. Verinha Malaguti Batista, responsável juntamente com Nilo Batista por ter feito Caridad lecionar por várias vezes no mestrado de uma IES no Rio e grandes amigos, me disse que ficaram “tristes como os tristes tigres!” E Arturo Cano, desde Oaxaca: “Estoy igual de consternado que tú se sentía la fraternidad que ella irradiaba.”
        José Luiz pediu que escrevesse alguma coisa pra registrarmos no blog, mas tá difícil, tô numa tristeza de fazer clave de fá.
        Busquei as fotos para que se pudesse fazer uma homenagem, con la guardia en alto!, e escolhi estas duas: a de 2005, mirando ao sul e a de seu último passaporte, com que mirou o sul espalhando seus conhecimentos.
        Aqueles olhos azuis estão fechados pra sempre agora. Agora acabou. Logo agora que o pior já passou.
  
  
Profa. Dra. Caridad Navarrete Calderón, 2003
 ( a do passaporte)


Porto de La Habana, 2005

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

1254- Dias estranhos - Coluna do professor Virgilio Mattos


DIAS ESTRANHOS

   Virgílio de Mattos

Outubro que sempre foi um mês rubro, nunca foi tão aziago, não que eu me lembre.
As más notícias do cotidiano são de todas as ordens: políticas, econômicas, pessoais. Os fascistas avançam por toda parte. E as más notícias com eles. Parece praga.
Entretanto, talvez a maior perplexidade seja o papel desempenhado pelo Supremo Tribunal Federal, “guardião da constituição” (art. 102 da CRFB), que tem funcionado como um autêntico tribunal de exceção – o que é expressamente vedado pela própria Constituição, bastando confrontar seu art. 5º, inciso XXXVII – no julgamento da Ação Penal n. 470.
Sempre aprendi – inclusive com vários professores fascistas – que na dogmática “só a prova condena, só a prova absolve” e que condenar sem provas era a violação mais mesquinha não só do devido processo legal – no qual a ausência de provas conduz inexoravelmente à absolvição – como do próprio estado democrático de direito, que sempre deve ser lido como estado democrático de direito burguês, enquanto a humanidade vive esse estágio no qual convive com a existência do direito burguês.
Ensinava, quando ensinava direito penal, que é ele, por excelência, o braço armado da superestrutura, feroz cão de guarda dos poderosos e sempre que atua produz efeito iatrogênico. É simbólico e tem sempre uma função política, de contenção do proletariado ou do subproletariado.
Não me enganava e nunca enganei a ninguém: a principal função do direito penal é conter os avanços das massas pauperizadas cominando penas privativas de liberdade àquelas condutas que, de alguma forma, possam atingir os privilégios das classes dominantes. Nada mais, nada além. E isso, convenhamos, ele faz muito bem.
Enquanto estivermos vivendo sob a mesquinharia do sistema capitalista, em que o homem deve ser empregado do homem e não amigo do homem, penso que não haverá saída, só mesmo “ruas, viadutos e avenidas”, como dizia o poeta. E nessas ruas, enquanto por elas não passar as massas de explorados a fazer sua justiça implacável, haverá espaço para os midiáticos paladinos da moralidade que não têm como sequer olhar o próprio rabo.
As piores notícias, no entanto, chegam de outra forma e de vários lados do mundo, com amigos devastados por metástases inoperáveis e intratáveis.
Logo eles, os mais fortes e mais firmes e que lutaram tanto a vida inteira, terem um final de vida assim: inapelável.
Terão toda a eternidade para descansarem, sei bem disso e a querida que ouvi hoje o fio de voz bem fraquinho, a que ambos debitamos a esse serviço telefônico de merda – para nos enganarmos e poder seguir conversando, ainda me disse um “te amo” na língua dela.
Choro de raiva e de vergonha. Raiva por ver tanto filho da puta – com todo o respeito que me merecem as putas – por aí, mundo afora, vendendo saúde e vergonha de não conseguir prestar uma homenagem à altura – as palavras não saem, essas vadias.
Dias estranhos. Além da alegria perdi o manejo das palavras.
Lembro de Mario Benedetti:
No sé qué les debemos
pero eso que no sé
sé que es muchíssimo.
Novembro que venha como mês dos vivos.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

1237- Militantes não morrem, ficam encantados - Coluna do professor Virgilio Mattos


        MILITANTES NÃO MORREM, FICAM ENCANTADOS
                                   Virgílio de Mattos
        Confesso-lhes que a notícia me pegou como uma patada no estômago. Fiquei triste o resto do dia e me perguntando, como sempre faço em momentos como este: como é que tem tanto filho da puta - com todo o respeito que me merecem as putas – com boa saúde e um companheiro desses morre?
        A última vez que o vi foi no final de maio de 2010 e ele estava bem. Aliás, o título da entrevista que a revista FORUM (n. 101) publicou foi exatamente este: ESTAMOS TODOS BEM, quando lhe perguntei sobre a sua ex-companheira e os filhos dela sequestrados junto com ele por uma operação conjunta entre o serviço de informações uruguaio e o DOPS de Porto Alegre, nos tempos ainda mais sombrios de Operação Condor.
        Universindo Diaz, como o conhecemos no Brasil ou Universindo Rodriguez, como o conhecem no Uruguay, me pareceu alegre, bem disposto, ágil de corpo e mente e com um senso de humor difícil de encontrarmos no Uruguay, principalmente entre os militantes, sempre tão literais e sisudos.
        Em 2011 ainda tentei trazê-lo de novo ao Brasil para que fizesse o encerramento do IVº Seminário Antiprisional Desconstrução das Práticas Punitivas e ele declinou amavelmente, depois de minha irritante insistência, tanto com ele, quanto com os amigos dele. Tinha outras tarefas.
        Ele era assim: um sujeito simples e extremamente corajoso. Desde o exílio na Suécia resolveu voltar e tornar a arriscar a vida – já havia arriscado tudo mesmo – no Cone Sur. Sabia bem dos riscos e das consequências. Resolveu arrostar todos e todas, riscos e consequências entenda-se.
        Seu endereço eletrônico trazia o seu número de prisioneiro no penal Libertad. Memória e luta. Trabalhava em um bom lugar e se orgulhava da pesquisa de história oral que realizava, aliás foi a desculpa que utilizou para não vir ao Brasil no seminário: coincidência de datas.
        Coincidência de tragédias, o filho de camponês do norte do Uruguay não pôde formar-se em medicina, como sonhava na juventude. Formado historiador sua história se confundiu com a nossa história e a história dos lutadores por dias melhores, por menores que sejam as chances.
        Universindo Rodriguez Díaz foi um exemplo, sobretudo de humildade para as gerações mais novas. Pessoas como ele fazem falta em um mundo tão perverso e sombrio como este que temos a infelicidade de habitar.
        Militantes como ele não morrem, ficam pra sempre encantados como uma estrela. Uma estrela vermelha no firmamento.
        Queria te dizer, meu chapa, que você deixa tristeza e saudades, mas sobretudo o exemplo – tão firme, tão digno – de luta. Com sua ausência não ficamos nada bem.
        Busco consolo em Mário Benedetti, um poeta querido em comum:
        Lento pero viene
        El futuro se acerca
        Despacio
        Pero viene.
        A hora dos nossos inimigos comuns está por chegar, pena você não estar mais por aqui pra enxergar.
        Vai na paz!

domingo, 2 de setembro de 2012

1236- Cinema em Família - coluna do professor Virgilio


CINEMA EM FAMÍLIA
         
        Virgílio de Mattos

Que sorte a nossa existirem Isa Grinspum Ferraz e sua sensibilidade. Foram elas, a sensibilidade e Isa, que nos apresentaram o extremamente correto e bem feito MARIGHELLA, o filme. Mano Bronw fez a canção.
Em tempos tão sombrios de neoliberalismo e indigência cultural reflexiva, assistir ao autoral MARIGHELLA é um alívio comparado à água filtrada e gelada em insuportáveis tardes calorentas nesse nosso final de falso inverno, com temperaturas acima dos 30º.
O filme de Isa, que é aula de cinema e de família – que sempre pode ser menor célula repressiva do Estado; ou, como no caso do filme: um coletivo unido e solidário, tanto nas adversidades, quanto nos momentos mais felizes. Ela conseguiu fazer, com as lembranças da infância, muito mais do que um emocionante relato pessoal. Fez com que todos nós, que tivemos a sorte de não termos sido trucidados pela ditadura empresarial-militar, pudéssemos refletir sobre família e cinema, sobre coletivo e repressão (qualquer que seja ela).
É um filme que, contando a história do tio mais famoso de Isa, nos conta a história do Brasil. Filme que deve ser visto, revisto e discutido.
Algumas passagens emocionam até estátuas de bronze. Clara Charf, viúva de Marighella, chorando e relembrando a advertência feita pelo querido companheiro sobre a clandestinidade, a de que não deveria sorrir em público, porque seria facilmente identificada por aquele sorriso que encanta até hoje. Clara chora ao lembrar que “nem sorrir a gente podia”.
Teve gente que ficou com os olhos cheios d’água.
Como faz falta, hoje em dia, pessoas tecidas com o mesmo fio da fibra de Marighella.
Seu célebre “ou tá com o Coletivo, ou tá com a Casa”, dentro de condições drásticas de encarceramento no Presídio da Ilha Grande-RJ, é de uma atualidade preocupantemente atual: ou ‘nego’ tá com o ‘Coletivo’, com a resistência à mesmice; ou tá com a ‘Casa’ do consumismo, sem fim ou limites, e demais pilares do conservadorismo.
Assista o filme em sua cidade.

Em Belo Horizonte a estreia foi ontem e está em cartaz no  Belas Artes 3, às 14:40,  19:15 e  21:30. 100min. Indicação de idade 10 anos.

sábado, 4 de agosto de 2012

1220- Cánteme - Silvio Rodriguez - tradução Virgilio Mattos -


CÁNTEME – Silvio Rodriguez
                        (trad. Virgílio de Mattos)
Cante-me
Cante-me, quem tenha o verso
Mas não com os cristais primorosos
Que o tempo já não é assunto de alvoroços
Senão prova mais áspera do que suave.

Cante-me quem tenha tanto
mas não para estragar-me os sentidos
como eu que me sinto como seu amigo
eu que como sou, também sou canto.

Cante-me, sim, para ouvi-lo
como aquela canção, a que eu fizera
mas cante-me para aplaudi-lo
pelo que soube ontem, ontem, hoje e depois.

Cante-me para salvá-lo
entre as coisas que me identificam
mas cante-me para premiá-lo
Pelo melhor fazer, no amanhecer.




Cante-me quem tenha bolso
Onde não exista lugar para o medo em vão
Cante-me, ainda que não seja de todo são
mas sim canção no final e não um roubo.

Cante-me que aqui existem pulmões
repletos de conquistas no passado
cante-me sem pudor nem cuidado
cante-me no final se tem razão.

Cante-me, para salvá-lo
entre as coisas que me identificam
mas cante-me para premiá-lo
pelo melhor fazer no amanhecer